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Internet e os limites entre público e privado

Online: sempre. Status: Disponível. Perfil: Público. É assim que a maioria das pessoas se apresenta ao mundo, hoje, e nossas crianças e adolescentes não ficam fora dessa cena. Vivemos conectados à internet e às redes sociais, trocando informações, opiniões, vídeos, fotos – desde quando acordamos até a hora de dormir. Daí que o espaço virtual tem tomado dimensões públicas que merecem atenção.

Não podemos negar que os inúmeros avanços tecnológicos alcançados por nós, humanos, trouxeram muitos benefícios, como a agilidade na troca de informações, a possibilidade de conexão com o mundo, e muito mais. Mas isso não quer dizer que não devamos repensar a forma como temos nos relacionado com esses aparatos e espaços virtuais. Tudo deve ser compartilhado e curtido instantaneamente? Preciso mesmo comentar esse post? Aceito essa solicitação de amizade de imediato? Meu filho está pronto para ter um perfil no Instagram? Esse post deve ser mesmo público? Reflexões precisam, sem dúvida, começar em nós, adultos, para reverberar nos mais novos.

Parece-me que, atualmente, muitas vezes, protegemos demais nossos jovens e crianças do mundo real, devido ao aumento da violência urbana, e os deixamos sozinhos no espaço virtual. Como já bem colocou a educadora Rosely Sayão, hoje, nossos filhos estão presos no mundo e soltos na rede. De fato, somos pais estrangeiros de filhos nativos digitais, mas isso não significa que crianças e adolescentes, por maior que seja seu domínio da tecnologia, não precisam ser educados para essa ambiência digital, e, muitas vezes, protegidos do espaço virtual – tal qual fazemos com outros espaços públicos. Crianças e jovens precisam ser preparados para lidar com as relações que ali irão se estabelecer, e de forma muito mais imediata, intensa e em larga escala.

Uma vez na rede, sempre na rede. Do antigo diário, com o qual compartilhávamos nossos segredos num passado recente, podíamos arrancar a página, mas um post jamais poderá ser totalmente apagado da web, e o alcance de um comentário inadequado pode tomar proporções desmedidas. Por isso a importância de revermos a exposição experimentada por nós, adultos, já que os mais jovens nos têm como exemplos. Com a falta de conhecimento dos códigos de comportamento nas redes sociais, crianças e jovens, embora “nativos digitais”, ainda precisam de mediação dos adultos no uso das tecnologias e redes, além de bons modelos e serem seguidos.

Sem dúvida, a destreza com que dominam os aparatos tecnológicos é de nos impressionar; parecem já nascer com dedos touch screen, como costumo dizer, mas, por estarem numa fase especial de desenvolvimento, ainda não têm formada a capacidade de abstração do pensamento e, menos ainda, introjetada a regra social.

Agem pelo impulso, sem se darem conta das consequências de um toque do “enviar” um e-mail, compartilhar um post, foto ou comentário. Crianças e adolescentes não têm a compreensão total de como devem se comportar nesse ambiente tido como virtual, mas bem real na socialização diária deles.

A internet, hoje entendida como ambiente social, é também, assim como a praça, cidade ou escola, um espaço de exercício de cidadania, e, por isso, os limites e dimensões de liberdade e segurança devem ser muito bem conduzidos com os mais novos. Por isso, volto a dizer que a educação para a cidadania digital se faz urgente nos tempos de hoje. Mas, para que isso aconteça, nós adultos devemos primeiro repensar a relação que temos estabelecido com as redes sociais. Precisamos nos desconectar para termos mais tempo de concentração no que é urgente e importante – mais tempo de escuta, de reflexão, encontro e mediação com crianças e jovens. Porque as melhores coisas do mundo, parodiando o excelente filme da Lais Bodansky sobre adolescer na contemporaneidade, devem, sem dúvida, permanecer privadas ou ser narradas com a devida calma. Curtir, compartilhar e comentar tudo, 24 horas por dia, não são obrigações a serem seguidas. Já educar nossos filhos, nativos digitais, para o uso adequado das redes sociais é, sim, nossa responsabilidade, que deve ser compartilhada com a escola.

Na Escola Eleva, por exemplo, a tecnologia é usada diariamente no campus, sempre a serviço da educação. Quando os alunos começam a usar os chromebooks, depois seus computadores pessoais, muitas conversas sobre usos e abusos da tecnologia passam a permear nosso dia a dia escolar. É hora de estar com celular? Como estamos nos organizando no Google Classroom? Meus amigos estão todos incluídos no grupo de WhatsApp? Sabemos que, desde muito cedo, as crianças de hoje são munidas de poderosos aparatos tecnológicos, mas vale ressaltar que existe um caminho para a exposição a eles, como em tudo no desenvolvimento do ser humano. Alguns precisam primeiro saber organizar seu estojo, antes de poderem acessar o mundo num toque.

Trabalhar em equipe e aprender a dividir podem ser habilidades imprescindíveis, exercitadas no dia a dia escolar, antes de poderem conversar com pares por mensagens. O amadurecimento emocional e o desenvolvimento da consciência crítica são de suma importância para um bom comportamento online. Portanto, se hoje é fato que não há como evitar a relação com a tecnologia, já que a proibição não é a melhor solução, que possamos, juntos, buscar regras claras para seu uso adequado, pautadas em horários, supervisão e muito diálogo.

Texto de Lais Fontenelle – Coordenadora do Departamento de Psicologia da Escola Eleva e parceira do LIV – Laboratório Inteligência de Vida.Escola LIV

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