suicídio na adolescência

Quando setembro passar: reflexões sobre suicídio na adolescência e a importância da utopia

Escrevo sobre setembro – mês que acabou de passar, trazendo a chegada da estação que anuncia vida, florescimento: a primavera, estação das flores. Porém, nos dias de hoje, esse mês traz outros sentidos importantes. Desde 2015, setembro ganhou o tom do amarelo numa campanha brasileira de prevenção ao suicídio, uma iniciativa do Centro de Valorização da Vida (CVV), do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). E é sobre esse tom de setembro que venho aqui tratar. Especificamente, sobre o suicídio na adolescência e as possíveis formas de prevenção.

Primeiro de tudo, destaco que é preciso falar sobre o tema. Só assim poderemos nos conscientizar e nos fortalecer como rede de apoio a esses jovens, que, muitas vezes, se sentem desamparados numa cultura do individualismo, espetáculo e performance, além de desconectados com o que realmente importa. Precisamos servir de apoio, com escuta e diálogo, sempre. Mesmo quando setembro passar.

No ano passado, a série original do Netflix “Thirteen Reasons Why” tratou do suicídio de uma jovem de 15 anos e trouxe o tema à tona, fazendo com que pais, educadores e os próprios adolescentes se debruçassem sobre a questão, perdendo noites de sono na tentativa de entendimento do porquê, ou dos porquês, de uma jovem bonita, amada e inteligente atentar contra sua própria vida. Mais recentemente, em abril deste ano, alunos de um tradicional colégio de São Paulo também se suicidaram num intervalo de 15 dias. Isso levou a imprensa nacional a pautar o tema, e grandes especialistas a se voltarem ao debate público sobre a importância de se falar sobre o suicídio sem o medo, ou a falsa ideia de que falando sobre o assunto estaríamos, de alguma maneira, fomentando o ato. Vale destacar que, desde o lançamento da série, aumentaram os pedidos de socorro enviados para o CVV (Centro de Valorização da Vida) no Brasil. Na época em que o programa foi lançado, a Netflix disponibilizou uma página de suporte, a 13reasonswhy.info, divulgando o contato de centros de apoio ao redor do mundo, o que aumentou significativamente o número de pedidos de socorro dos jovens.

Nós, seres humanos, nascemos com uma única certeza em nossas vidas: a da inexorabilidade da morte. Mas nunca paramos para pensar sobre isso, senão nos seria impossível viver. Utopias nos fazem sublimar esse duro fato (usando um termo da psicanálise) para que possamos seguir em frente, diariamente, acreditando que um futuro melhor nos espera. Aliás, parece ser essa utopia, também, que nos une como comunidade escolar. A possibilidade de, juntos, formarmos líderes capazes de transformar suas vidas e o mundo, como coloca nossa missão. O papel da educação parece ser, portanto, cada vez mais, o de reencantamento do mundo. E é isso que vejo e que me move diariamente no trabalho escolar. A potência de transformação.

Sabe-se que a adolescência é uma fase da vida entre a infância e idade adulta, na qual se experimenta o período da puberdade, caracterizado por transformações físicas e biológicas e oscilações emocionais ocasionadas pelas alterações hormonais que o corpo sofre. Mais do que isso, segundo Daniel Siegel, no bestseller “O Cérebro Adolescente”, a adolescência é um período de muitas mudanças cerebrais que envolvem a busca por novidade, o engajamento social e a intensidade emocional, além de uma explosão criativa. Porém, esse mesmo autor nos alerta que para cada nova maneira de pensar, sentir e se comportar com seu potencial positivo, há, igualmente, um possível lado negativo do qual precisamos cuidar. Por exemplo, a busca por novidade que pode ter como seu lado negativo a procura por sensações e riscos que minimizem os perigos. Ou seja, a impulsividade e onipotência, características da adolescência, podem transformar uma ideia em ação se não houver a devida reflexão.

É na adolescência, também, que o distanciamento das figuras parentais acontece para que a liberdade e autonomia da vida adulta possam ser experimentadas. Mas isso não quer dizer que o adolescente não precise do limite, do contorno ou, em última instância, do monitoramento dos adultos cuidadores. Pelo contrário: é nessa fase de interdependência que os jovens mais precisam de acolhimento do seu processo rumo à maturidade emocional. O difícil é dosar os limites com espaços de experimentação quando esses sujeitos já não cabem mais em nossos colos, principalmente nos dias de hoje. E por que digo isso sobre nossos tempos? Do que diferem de outros momentos históricos? Porque, hoje, vivemos num mundo muitas vezes distópico, hiperconectado, onde o espaço virtual se tornou real para nossos filhos e alunos, com limites e fronteiras cada vez mais esgarçados.

A geração atual, tida como nativa digital, vive uma contradição na sua essência, já que é superprotegida pela família (por conta da violência urbana que impera e para que não sofra frustrações inerentes à vida), mas jogada no mundo em rede, que se abre num clique. Isso sem a mediação de um adulto, que, hoje, se vê num abismo geracional por não dominar as inovações tecnológicas como os mais novos. Porém, sempre vale lembrar que, por mais que essa geração nasça com o dedo touchscreen, isso não significa que está pronta para lidar com o conteúdo que encontrará nesse mundo virtual, que descortina segredos, comportamentos adultos e que pode ser muito cruel, além de prezar por imediatismo e conexão sem respiro e, mais do que tudo, por engajamento sem a presença do corpo inibidor.

E o que isso significa? Que hoje, o sentido de privacidade e o de intimidade têm outros contornos, já que, por meio de um post, algo é revelado com um alcance mundial de curtidas, em segundos, ganhando uma escala social que pode arruinar para sempre uma vida. O rastro digital é algo, hoje, experimentado por esses jovens, em fase de formação identitária, sem que se deem conta. Em outros momentos, poderíamos esquecer um fato que nos foi negativo mudando de escola ou frequentando outros espaços públicos. Mas, com a vida digital, carrega-se para sempre na memória social aquele comentário. Basta um print de tela e um compartilhamento inadequado impossível de deletar.

Convoco-nos, então, à reflexão sobre o cenário acima, somando-se a ele os dados de que, no Brasil, entre 2000 a 2015, os suicídios aumentaram 65% dos 10 aos 14 anos, e 45% dos 15 aos 19 anos, segundo levantamento do sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, coordenador do Mapa da Violência no Brasil. E por que será que esse triste fenômeno está acontecendo? Por que haveria mais adolescentes interrompendo a própria vida nos dias atuais do que no passado? Segundo a jornalista Eliane Brum, “a internet, onde os adolescentes e a maioria dos adultos vive, arrancou a ilusão sobre o que chamamos de humanidade. Ao permitir que cada um se mostrasse sem máscaras, que cada um pudesse ‘dizer tudo’, abriu-se uma ferida narcísica cujos impactos levaremos muito tempo para dimensionar.”

Destaco que essa ideia de olharmos para nossa época, com seus imperativos de gozo e sua fluidez na tentativa de encontrar respostas, de forma alguma apaga ou negligencia a importância da especificidade de cada caso ou a perspectiva da doença mental e suas características. Mas é preciso situar essa singularidade na história social. Quando adolescentes se matam, eles revelam algo sobre si mesmos, claro, mas, também, falam sobre a sociedade e o momento no qual estão inseridos, segundo mesma autora.

O que quero dizer é que, sob essa perspectiva, a prevenção não é uma receita fácil e não pode, de forma alguma, ser uma tarefa única e exclusivamente individual ou restrita à família daquele que sofre e não sabe identificar os sinais. A árdua missão de prevenir o suicídio é de todos nós. E, aos meus olhos, a saída mais eficiente é através do diálogo, do resgate da intimidade com nossos jovens oferecendo escuta, além de contorno e, em última instância, do compartilhamento de utopias. Segundo Cesar Ibrahim, psicanalista carioca especializado na clínica de adolescentes, estamos, atualmente, enviando nossos filhos e jovens para uma expedição na Sibéria com trajes de banho. E eu tendo a concordar com ele. A suposta superproteção experimentada por crianças e adolescentes, hoje, não os prepara para a pressão da vida e suas frustrações futuras.

Precisamos preparar os jovens para as adversidades do século XXI, além de reativar a coletividade, para que façamos valer a ideia do provérbio africano que diz que é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança. É claro que sinais como cortes, fala recorrente sobre a falta de vontade de viver, distúrbios do sono, perda ou aumento de peso, queda do desempenho escolar e ansiedade são sinais de alerta, mas acredito que, se conseguirmos resgatar o sentido de comunidade, tecendo redes de apoio e cuidado entre pares, poderemos transformar dor em amor. Criemos laços.

Usemos as redes sociais como ferramenta de encontro com essa geração. Estejamos presentes na vida de nossos adolescentes, supervisionando seu cotidiano, monitorando de perto suas relações sociais e estando sempre alertas aos sinais de cuidado com afeto e diálogo. Não nos deixemos sucumbir à urgência da sociedade da informação em detrimento da relação com nossos jovens. Fiquemos, parafraseando Gonzaguinha, com a pureza da resposta das crianças: é a vida e é bonita. Cantemos a beleza de sermos eternos aprendizes junto aos mais novos.

Seguimos em parceria, escola e família, passando valores mais humanos e cuidando daqueles que devem ser prioridade em nossas vidas.

Texto de Lais Fontenelle – Coordenadora do Departamento de Psicologia da Escola Eleva e parceira do LIV – Laboratório Inteligência de Vida.Escola LIV

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