Super expectativa dos pais sobre os filhos pode gerar amor tóxico

A expectativa de um futuro brilhante é algo que, em geral, acompanha pais e mães desde a notícia da chegada de um filho. No entanto, para o psicanalista Christian Dunker, algumas vezes essa perspectiva pode causar problemas. “Esse tipo de super expectativa gera um amor tóxico, que independe do que a pessoa faça. Isso mata o emocional de uma pessoa e temos visto isso acontecer em famílias que acreditam que a única forma de amar é proteção a riscos externos e supervalorização da autoestima”.

Dunker acredita que esse comportamento é resultado de um cenário global, em que se tem menos filhos e, portanto, eles representam um esforço maior, tanto financeiro quanto afetivo. Somado a isso, as relações entre pais e filhos estão cada vez mais próximas e horizontais, algo que pode ser positivo, mas que pode trazer efeitos colaterais. “A relação entre pais e filhos se tornou mais íntima, o que é legal, eles têm uma relação mais horizontal. Porém, leva a esse efeito colateral de pensar que o nosso amor por eles pode protegê-los de qualquer coisa e que eles são uma extensão nossa. A gente começa a acreditar que sabemos o que é melhor para eles, e nem o Estado nem a escola têm nada com isso”.

Autor do livro “Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma: Uma Psicopatologia do Brasil Entre Muros”, Dunker relaciona essa estrutura familiar à Lógica do Condomínio, assunto desenvolvido em seu livro. O conceito busca explicar como a sociedade brasileira lida com o diferente, segregando os espaços. No caso da formação, a escola e o Estado são apartados do processo educacional pelos pais, que se veem plenamente capazes de exercerem o papel principal no desenvolvimento de seus filhos. “Os pais precisam entender que o seu processo de parentalidade requer formação, a gente não nasce sendo pai, a gente precisa da escola, da comunidade, da nossa família, que nos ajudam a sermos pais e mães. Os pais precisam ter mais disposição para aprender junto com seus filhos”, afirma o psicanalista.

Como lidar com a competividade de maneira mais saudável

Se de um lado pais e mães precisam estar atentos às super expectativas, por outro, não é possível ignorar que crianças e jovens são submetidos cada vez mais cedo a uma lógica competitiva, que pode ser fonte de sofrimento e angústia. Para o psicanalista, é necessário encarar a competição de maneira menos simplistas, pois não há mais como eliminá-la, apenas reduzir seus efeitos negativos. Para isso, ele sugere ampliar nosso horizonte em relação à função da escola, não reduzindo a expectativa a uma boa nota, por exemplo. “Essa narrativa de que se o estudante não tira uma boa nota não será nada na vida é muito empobrecedora. Ela verticaliza demais o que é a vida e a felicidade”.

Se os resultados acadêmicos forem considerados como única fonte de felicidade e sucesso, todos os outros aspectos da vida que podem nos trazer alegria serão ignorados. Por isso, é preciso ver a competividade sob outra ótica, que não seja reducionista, que não reduza crianças e adolescentes às suas notas, destaca o especialista. Dessa forma, eles serão capazes de tirar o melhor dela, usando as derrotas apenas como uma etapa do processo.

Dunker lembra ainda que a educação é uma tarefa que requer humildade e que os responsáveis não devem prospectar em seus filhos aquilo que eles gostariam de ser e não foram. É preciso deixá-los livres para trilharem seus próprios caminhos e viverem plenamente os fracassos e as vitórias.

A equipe do LIV recebeu o psicanalista Christian Dunker na Imersão Pedagógica LIV 2019 para uma conversa sobre o sofrimento na educação. Na palestra, Dunker explicou o conceito de sofrimento, como a escola pode, em alguns aspectos, ser origem dessa dor, e como podemos pensar uma nova escola.

1 pensamento sobre “Super expectativa dos pais sobre os filhos pode gerar amor tóxico”

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

2 × 3 =