Os benefícios do tédio para as crianças

Quando falamos em incentivar a criatividade em crianças e adolescentes, logo vem à mente uma série de atividades engajadoras e que demandam participação ativa para não deixar ninguém parado. Ficar alguns momentos sem ter nada para fazer com certeza não é uma opção para a maioria, não é mesmo? Contudo, especialistas defendem que um tempo de ócio pode impulsionar a criatividade e permitir novos vínculos.

Para compreender mais esse tema e como ele afeta especialmente as crianças e os adolescentes é preciso diferenciar tédio e ócio. O primeiro é um sentimento e, como todo sentimento, pode se manifestar de diferentes maneiras e em níveis variados de intensidade. Em nível elevado, pode levar à paralisação das ações, gerando uma total falta de motivação.

Já o ócio é um momento na rotina em que abrimos mão de distrações externas, como trabalho, estudos e aparelhos eletrônicos, para curtir um momento para, literalmente, fazer nada. “Ficar no ócio não necessariamente é estar entediado. Essa pausa pode ser importante para a criação de novas soluções e ideias em relação a nossa vida”, explica Joana London, psicóloga e gerente pedagógica do LIV – Laboratório Inteligência de Vida.

Tem se tornado comum, contudo, escutarmos crianças cada vez menores relatando que estão entediadas nos momentos em que se veem sem nenhuma tarefa definida para fazer. Mesmo o momento do brincar, que poderia ser livre para a criatividade, vem se tornando mais padronizado com jogos e brinquedos que não inspiram à criação. “A priori, pode parecer estanho, mas se observarmos o contexto em que elas estão inseridas logo é possível identificar alguns sinais”, afirma Joana.

“Se pegarmos um breve histórico das brincadeiras de criança, por exemplo, é fácil observar que elas foram se tornando cada vez mais prontas. Não há um processo criativo dentro dos jogos eletrônicos, eles estão absolutamente finalizados, você só tem que cumprir com o objetivo que ele mesmo já definiu pra você. Muito diferente das brincadeiras de rua ou com times, onde o espaço precisa ser pensado, as regras precisam ser criadas e os objetos muitas vezes precisam ser adaptados. Quando não tinha bola, juntavam-se as meias. Quando não tinha gol, marcava-se com sapato”, destaca a especialista.

É possível dosar ócio e tédio?

Para Joana, boa parte da sensação de tédio entre as crianças vem de uma cultura imediatista que não as permite mais esperar. “Há uma ansiedade para que tudo se concretize com rapidez. E normalmente essa expectativa é alcançada, o que alimenta ainda mais essa angústia”, afirma. Por isso, quando a criança vivencia momentos de ócio nos quais as respostas não estão dadas ou o tempo não está preenchido com tarefas pré-determinadas, ela tem a chance de ampliar seus horizontes e criar.

“O espaço da brincadeira livre, por exemplo, é propício a isso. Além de ser um tempo de ampliar a criatividade e pensar em soluções diferentes, também é perfeito para criar novos vínculos entre crianças e também entre elas e os adultos”, destaca. “Considero o ócio ainda mais valioso nos dias de hoje. São nesses momentos que temos a oportunidade de maturar o tempo, desacelerar e ouvir o próprio ritmo. É muitas vezes no ócio que nos escutamos pela primeira vez e nos damos a chance de criar com os nossos próprios recursos e reconhecer nossas próprias potências”, completa.

Quando o tédio não faz bem

Embora momentos de ócio sejam cada vez mais necessários, eles podem se tornar prejudiciais quando tomam a maior parte dos dias. “A pausa é necessária, mas é preciso estar atento para não se tornar um movimento diário e constante, onde nada sai do lugar e não há nenhuma conexão com o que se está vivendo, pelo contrário, trata-se de uma desconexão de si e do mundo”, alerta a gerente pedagógica do LIV.

De fato, pesquisas mostram que o tédio extremo pode levar a hábitos prejudiciais à saúde. Segundo um estudo da Universidade de Montreal, no Canadá, indivíduos que ficam facilmente entediados, frustrados ou impacientes estão mais inclinados, por exemplo, a desenvolver comportamentos direcionados ao próprio corpo. “Transtornos crônicos e desordens cutâneas, como roer as unhas e vários outros hábitos são conhecidos como comportamentos repetitivos focados no corpo. Embora esses comportamentos possam induzir sofrimento ao corpo, eles também parecem satisfazer uma necessidade e oferecer alguma forma de recompensa para quem faz”, afirmou um dos autores da publicação.

Quando falamos em incentivar a criatividade em crianças e adolescentes, logo vem à mente uma série de atividades engajadoras e que demandam participação ativa para não deixar ninguém parado. Ficar alguns momentos sem ter nada para fazer com certeza não é uma opção para a maioria, não é mesmo? Pesquisas mostram, porém, que o tédio pode ser um impulsionador para a criatividade.

A psicóloga Sandi Mann, especialista da Universidade Central de Lancashire, no Reino Unido, pesquisou a supressão de emoções, incluindo o tédio, e seu impacto na realização de uma tarefa no trabalho. Em um experimento, ela descobriu que os participantes solicitados a completar um trabalho de escrita mais entediante apresentavam, ao final, mais criatividade para solucionar um problema, enquanto outro grupo de participantes cuja tarefa inicial havia sido mais interessante não teve tantas ideias “fora da caixa” na busca de uma solução.

É claro que isso não significa que devemos apenas fazer tarefas entediantes para só depois ter um lapso de criatividade. O que o estudo aponta é que o tédio não é necessariamente ruim, como muito se acredita.

Crianças cada vez mais entediadas

Para compreender mais esse tema e como ele afeta crianças e adolescentes é preciso diferenciar tédio e ócio. O primeiro pode levar à paralisação das ações, gerando uma total falta de motivação. Já o segundo pode ser importante para a criação de novas soluções e ideias. Contudo, é comum escutarmos crianças cada vez menores relatando que estão entediadas – e, claro, adultos agindo para evitar que isso aconteça. “A priori, pode parecer estanho, mas se observarmos o contexto em que elas estão inseridas logo é possível identificar alguns sinais”, explica Joana London, psicóloga e gerente pedagógica do LIV – Laboratório Inteligência de Vida.

“Se pegarmos um breve histórico das brincadeiras de criança, por exemplo, é fácil observar que elas foram se tornando cada vez mais prontas. Não há um processo criativo dentro dos jogos eletrônicos, eles estão absolutamente finalizados, você só tem que cumprir com o objetivo que ele mesmo já definiu pra você. Muito diferente das brincadeiras de rua ou com times, onde o espaço precisa ser pensado, as regras precisam ser criadas e os objetos muitas vezes precisam ser adaptados. Quando não tinha bola, juntavam-se as meias. Quando não tinha gol, marcava-se com sapato”, afirma a especialista.

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