As contribuições de Edgar Morin para a educação

Referência constante nas bibliografias de cursos nas áreas de educação, psicologia, filosofia e sociologia, entre outras, Edgar Morin é, sem dúvidas, uma das figuras mais respeitadas do pensamento ocidental contemporâneo. No campo da educação, especialmente, foi um dos primeiros pensadores do início do século 20 a sugerir uma reforma de paradigmas, questionando, já naquela época, o ensino meramente disciplinar e pautado em conteúdos técnicos.

Para ele, é a capacidade de aplicar o conhecimento de maneira crítica, e não o volume de informações adquiridas na escola, que pode ajudar o pensamento humano a se desenvolver. O pensamento, aliás, é a principal temática de Morin, que ao longo de sua vida criou e aperfeiçoou o que ficou conhecido como teoria do pensamento complexo.

E bota complexo nisso. Seus livros estão presentes em disciplinas universitárias e são referências de provas de concurso público e certificação, o que levou centenas, talvez milhares, de pessoas a lerem e se inspirarem em obras como O Método, Os sete saberes necessários à educação do futuro, e Ensinar a viver, para citar apenas alguns dos mais de 60 livros já publicados pelo autor.

Prestes a completar 98 anos, e em plena forma, o pensador segue dando palestras que levam o público a refletir sobre o presente e o futuro. Em junho deste ano virá ao Brasil especialmente para participar do Congresso Socioemocional LIV 2019, evento que acontecerá nos dias 7 e 8 de junho, no Rio de Janeiro, exclusivamente para parceiros e convidados do LIV – Laboratório Inteligência de Vida.

No texto de hoje, você vai conhecer mais sobre o trabalho de Morin, suas contribuições para a educação e entender um pouco sobre temas que serão abordados em sua palestra.

Vida e obra de Edgar Morin

Em seu quase um século de vida, Morin vivenciou duas guerras mundiais, uma guerra fria, e dezenas de mudanças no contexto social, econômico, cultural e escolar, para citar apenas alguns dos temas abordados em suas publicações. Também é doutor honoris causa em 17 universidades e um dos últimos grandes intelectuais da época de ouro do pensamento francês do século 20.

Com toda essa bagagem nas mãos, o autor defende que a maior urgência no campo das ideias não é rever doutrinas e métodos, mas elaborar uma nova concepção do próprio conhecimento. Em entrevista ao jornal O Globo em uma de suas últimas visitas ao Brasil, ele afirmou que as disciplinas que não dialogam entre si ensinam o aluno a ser um indivíduo adaptado à sociedade, mas impedem a compreensão dos problemas pessoais e do mundo. Por isso, no lugar da especialização, da simplificação e da fragmentação de saberes, a escola deveria abrir espaço para enxergar e debater a complexidade das relações, assim como incentivar o senso crítico de seus alunos.

“O modelo de ensino que foi instituído nos países ocidentais é aquele que separa os conhecimentos artificialmente através das disciplinas. E não é o que vemos na natureza. No caso de animais e vegetais, vamos notar que todos os conhecimentos são interligados. E a escola não ensina o que é o conhecimento, ele é apenas transmitido pelos educadores, o que é um reducionismo”, afirmou Morin na entrevista.

Nos dias atuais, esse tipo de argumentação pode parecer bastante comum e, se você acompanha o universo da educação, pode achar até um pouco “clichê”. Mas é importante lembrar que Morin construiu e defendeu a transdisciplinaridade (ou interdisciplinaridade) em um tempo no qual praticamente ninguém falava sobre isso. E é por essa razão que, ao longo das décadas, ele foi ganhando prestígio como um dos maiores influenciadores do debate educacional e filosófico ocidental.

Edgar Morin e os buracos negros da educação

Em uma das publicações mais conhecidas dos educadores, Os sete saberes necessários à educação do futuro (2002), Morin defende que os programas educativos governamentais, embora diferentes em cada parte do mundo, ignoram sete pontos (ou saberes) essenciais para que a educação avance, criando “buracos negros” que precisam ser revistos afim de se oferecer uma formação completa às crianças, aos jovens e aos adultos. A lista foi criada após um pedido da Organização das Nações Unidas para que Morin apresentasse uma relação dos temas que não poderiam faltar para formar o cidadão do século 21.

De acordo com o autor, o primeiro tópico da lista de buracos negros diz respeito ao próprio conceito de conhecimento. Ele explica que nas escolas o foco do ensino são os conteúdos de cada disciplina, mas ignoram o que é conhecimento de fato. “O conhecimento nunca é um reflexo ou espelho da realidade. O conhecimento é sempre uma tradução, seguida de uma reconstrução”, afirma o autor em seu texto célebre. Isso significa que nossos saberes não são um reflexo fiel e estático da realidade, mas sim construções que se modificam no dia a dia, afetadas por fatores internos e externos à própria escola. Para ele, o problema do conhecimento não deve ser um restrito aos filósofos. “É um problema de todos e que cada um deve levá-lo em conta muito cedo e explorar as possibilidades de erro para ter condições de ver a realidade”, completa.

Partindo para o segundo ponto, Morin diz que a escola deveria mostrar aos alunos os problemas de um nível global, explicando como cada conteúdo está ligado a outro – e não induzindo sua fragmentação e agindo como se a biologia não estivesse conectada com a história ou a geografia com a matemática e as linguagens, por exemplo. Para ele, as ciências, sejam humanas, exatas ou biológicas, erram em suas previsões porque se concentram em informações específicas e esquecem fatores humanos como sentimento, paixão, desejo, temor, medo.

O autor usa a economia para exemplificar seu raciocínio: “quando há um problema na bolsa, quando as ações despencam, aparece um fator totalmente irracional que é o pânico, que, frequentemente, faz com que o fator econômico tenha a ver com o humano, e por sua vez se liga à sociedade, à psicologia, à mitologia. Essa realidade social é multidimensional, o econômico é uma dimensão dessa sociedade, por isso, é necessário contextualizar todos os dados”.

A falta de debate sobre a dimensão da sociedade é, aliás, o terceiro buraco negro da educação apontado por Morin. Para ele, por mais que estudemos alguns aspectos biológicos em biologia, por exemplo, as escolas deixam de lado o fato de que o ser humano faz parte de uma espécie e essa coletividade, por sua vez, influencia nossa identidade. “Estamos em uma sociedade e a sociedade está em nós, pois desde o nosso nascimento a cultura se imprime em nós. Nós somos de uma espécie, mas ao mesmo tempo a espécie é em nós e depende de nós”.

Nesse sentido, ensinar a compreensão interpessoal é o quarto dos setes saberes defendidos por Morin. Ele refere-se a aprender a se enxergar como indivíduo, como espécie e como sociedade, sabendo que nossas ações impactam na vida de outras pessoas. Assim, defende que é preciso compreender não só aos outros como a si mesmo, e aponta para a necessidade da autoanálise, “pois o mundo está cada vez mais devastado pela incompreensão que é o câncer do relacionamento entre os seres humanos”.

O quinto aspecto trazido no texto Os sete saberes necessários à educação do futuro é ensinar estudantes a lidar com as incertezas. Embora exista uma tendência a ensinar conteúdos escolares como se fossem certezas já estabelecidas, é importante manter em mente que os avanços da ciência trazem mais novidades a cada dia, apontando para futuros incertos. “É necessário mostrar em todos os domínios, sobretudo na história, o surgimento do inesperado”, destaca o autor.

O aprendizado da compreensão planetária, sexto item citado por Morin, pede uma reforma de mentalidades para entender como a globalização afeta as relações humanas, em um momento em que estamos todos conectados. Para ele, a escola precisa abrir espaço para debater sobre a aceleração histórica, a quantidade de informação que não conseguimos processar e organizar e como vamos lidar com esse algo nível de globalização agora e no futuro.

Por fim, o sétimo e último buraco negro da educação reside nas questões morais e éticas das diferentes culturas. Nesse ponto, Morin diz que temos, ao mesmo tempo, responsabilidades pessoais e responsabilidades sociais. Assim, enquanto desenvolvemos nossa autonomia como indivíduo, não podemos ignorar nossa participação social.

Para ele, ensinar esses sete saberes necessários para a educação (e que hoje ainda não são desenvolvidos na maioria das escolas) não significa excluir as disciplinas já ensinadas, mas sim mostrar como elas estão conectadas umas às outras, que os fatos raramente têm explicações rasas e precisam ser olhados mais a fundo para que crianças e jovens tenham uma formação cada vez mais crítica.

4 pensamentos sobre “As contribuições de Edgar Morin para a educação”

  1. Nossa escola precisa absorver estes conceitos e desenvolver o aluno em amplos aspectos.
    A contribuição de Edgar Morin é fundamental para a “nova escola” que surgirá nos próximos anos e espero eu, que alcance todos os brasileirinhos!
    Professora Claudia Rodrigues

  2. Rita de Cássia Teixeira da Silva

    Percebo Morin um Profeta contemporâneo. Numa sociedade onde as complexidades estão presentes em tudo e todos, seu discurso ao mesmo tempo que nos instiga a reflexão sobre os conflitos diários, também nos acalma a alma e nos impulsiona a tomar decisões.
    Poder participar desse encontro com ele seria maravilhoso! uma oportunidade ímpar e um item especial no meu currículo da vida!

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