Entrevista com Rosely Sayão: “Dá trabalho mudar, mas dá mais trabalho ficar do jeito que está”

Especialista em infância com mais de 40 anos de carreira é um dos destaques da programação do Congresso Socioemocional LIV 2019, que acontece em junho.  

Rosely Sayão é uma das referências mais populares entre pais e educadores quando o assunto é a educação de crianças e adolescentes. Há mais de 40 anos atuando como psicóloga, escritora e consultora sobre temas relacionados à vida escolar, à relação das escolas com as famílias e ao desenvolvimento dos estudantes, é atualmente uma das palestrantes mais requisitadas do país.

Em junho deste ano, Sayão estará presente no Congresso Socioemocional LIV, onde vai dividir o palco com o psicanalista Christian Dunker em um debate sobre a saúde mental das crianças e dos adolescentes e qual o papel da escola nesse sentido. Para quem acompanha o LIV aqui no blog e nas redes sociais será possível assistir à palestra ao vivo pela internet.

Para falar um pouco mais sobre o tema de sua palestra, convidamos a especialista para um bate-papo sobre educação social e emocional, saúde mental e o que falta para que as mudanças que tanto falamos em relação à educação se tornem realidade. Confira a seguir os melhores momentos dessa conversa:

Qual a sua opinião sobre ensinar habilidades socioemocionais de maneira intencional na escola?

Tudo na escola precisa ser intencional e precisa ser planejado coletivamente. Aquilo que não é planejado coletivamente acaba surtindo efeito negativos nas crianças, pois um professor age de um jeito, outro professor age de outro… Por isso, tudo precisa ser intencional, planejado e executado pela equipe. É muito importante que a escola tenha essa equipe que trabalhe com ela para evitar conflitos em relação a suas propostas. A função principal da escola é exatamente o ensino e aprendizagem por parte dos alunos coletivamente. Para que isso aconteça de modo coletivo, é preciso que os relacionamentos interpessoais e sociais entre os colegas sejam ensinados.

Eu escuto muita gente dizer que “a escola só ensina, pois é a família que educa”. Ensinar e educar são inseparáveis: quem ensina, educa, e quem educa, ensina. E ensinar o relacionamento social nesse momento da nossa vida, não só brasileira, mas também global, é muito importante. Se a gente não tiver isso, que rumo vai seguir a vida em sociedade? A gente já percebe que está cada vez mais difícil. Então, é papel fundamental da escola trabalhar as questões sociais, de relacionamento e emocionais para que os estudantes reconheçam emoções que podem ser sentidas, mas não extravasadas.

Você já afirmou em um texto que as crianças estão com a saúde mental comprometida. Por quê? Qual caminho precisamos percorrer para sair desse quadro?

[A saúde mental das crianças] tem estado comprometida por uma rede de razões. Não tem uma razão maior ou menor, mas sim a reunião de vários sentidos. Vou citar alguns que acho importante. Vivemos em uma época em que a gente roubou a infância das crianças. Não é porque é criança que é garantido que ela tenha infância. Hoje, desde antes de uma criança nascer, os pais já pensam no futuro dela, na escola que vai frequentar. Desejam êxito escolar e fazem de tudo para isso acontecer. Há muita pressão sobre as crianças em um momento que não deveria existir. Essa história de que somos bons pais porque promovemos uma boa vida escolar para nossos filhos às vezes promove exatamente o oposto. Há muita ansiedade. Há crianças entre 10 e 12 anos nas escolas com síndrome de pânico, que não querem ir à escola tamanha a pressão que sofrem, a angústia. Esse é um dos motivos. Outro motivo é que a gente esqueceu que criança é criança. Criança dá trabalho, faz ruído, corre, que brincar. E isso está incomodando muito o mundo a adulto, a ponto de já ter um movimento de “livre de crianças” em hotéis e restaurantes.

Mas já deu menos trabalho, porque antes a gente deixava as crianças mais livres para se relacionarem entre elas. Hoje, a gente quer controlar os mínimos movimentos, pouca oportunidade elas têm de conviver com outras crianças de idade semelhantes ou diferentes, e elas dão mais trabalho ainda por esse motivo. A gente tem um ideal de criança na cabeça e quer moldar cada filho, quando um é diferente do outro.

E qual o papel da escola em relação à saúde mental de seus alunos e funcionários?

Primeiro de tudo, é preciso formação da equipe, no sentido de falar sobre qual é o papel do professor na construção de relacionamentos sociais positivos. As escolas, de um modo geral, têm errado muito a mão. Começa o erro quando [o aluno] chama os colegas de amigos. Na escola tem que ter colega, não amigo. Amigo a gente escolhe, colega a gente não escolhe. A gente tem que aprender a conviver com as diferenças, respeitar essas diferenças, aprender a trabalhar com quem a gente não vai com a cara, e não ficar num grupinho de semelhantes que tudo faz junto. A escola erra quando permite que os alunos escolham seus pares para trabalhos em grupo, quando é a escola que deveria fazer a escolha, exatamente para mostrar a importância do trabalho entre os diferentes e como é rica esse relacionamento.

Há muito tempo se fala que é necessário encontrar outros caminhos para o ensino escolar, afim de oferecer uma formação mais completa para as crianças. Mas por que é tão difícil essa mudança acontecer? Qual o maior desafio a ser superado nesse sentido?

Eu vejo uma grande dificuldade de caminhar para uma mudança porque, até hoje, tradicionalmente as escolas são muito semelhantes entre si. Parece que as escolas gostariam de mudar se todas mudassem ao mesmo tempo, que daí teria mais força o movimento. Mas a grande novidade das ciências da educação é que cada unidade escolar pode transformar seu ensino de uma maneira totalmente diferente da unidade escolar mais próxima. É como se todo mundo estivesse esperando alguém dizer “pode mudar!”. Só então os pais vão concordar, a sociedade vai achar ótimo, os alunos também vão aderir… Não é assim que a gente faz mudança. Mudança a gente tem que bancar a resistência, bancar a adaptação, perceber que em alguns momentos na mudança a gente pegou atalhos que não foram bem recebidos por ninguém. Inclusive no processo de ensino e aprendizagem a gente tem que mudar. Dá trabalho mudar, mas dá mais trabalho ficar do jeito que está. Quem mais sofre em permanecer do jeito que está são os alunos e os professores.

2 pensamentos sobre “Entrevista com Rosely Sayão: “Dá trabalho mudar, mas dá mais trabalho ficar do jeito que está””

  1. O grande desafio da educação a nosso ver consiste em ensinar e educar com sentimentos de prazer lúdico. A velha teoria de que a vida só pode ser vista sob dois princípios: O do prazer e o da realidade deve dar lugar à possibilidade do princípio da incerteza, da imaginação da fantasia que ficaria como fiel da balança, do pêndulo que oscila entre o prazer é a realidade. O que a nosso ver é a origem dos pensamentos mais criativos e da permanência indelével na memória dos conhecimentos adquiridos com alegria , amor e auto-estima.

  2. ANDREA GARCIA DA ROCHA

    Ótimo material para motivar os debates entre educadores e familiares sobre a importância da saúde mental e da importância de se falar sobre os sentimentos nas escolas!
    Aproveito para perguntar sobre as palestras que acontecerão no congresso, teremos realmente acesso ao vivo? Como e por onde será o acesso?

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