Edgar Morin: “É preciso ser guiado ao mesmo tempo pela razão e pela paixão, e isso é navegar pela vida”

“Quando tivemos a ousadia de convidar o francês Edgar Morin para participar do nosso Congresso, não acreditávamos que ele poderia aceitar. Hoje, estamos diante de um dos maiores pensadores da atualidade, que aos 98 anos continua a impactar os educadores com suas falas”, disse Caio Lo Bianco, idealizador e gerente executivo do LIV, durante o 3º Congresso Socioemocional LIV, realizado no Rio de Janeiro nos dias 7 e 8 de junho.

Morin, antropólogo e teórico da complexidade humana, discursou para 1.500 pessoas durante cerca de 1 hora (veja na íntegra nesta transmissão em vídeo). Além de discorrer sobre a relação entre emoção e razão no pensamento complexo, falou sobre o Brasil. Citou nomes de comunidades e times de futebol, arrancou reações e aplausos da plateia: “Vi neste país muitos episódios magníficos e também terríveis desde 1960. Um Brasil das iniciativas e particularidades, de tantos esforços criativos para criar uma vida melhor mesmo com poderes que só procuram o lucro e a dominação. Esse Brasil que eu amo, eu quero saudá-lo!”, disse.

Abaixo, confira as principais ideias apresentadas pelo pensador, que abordou temas como o conceito de ser humano, as relações entre as pessoas, o papel dos docentes na educação de crianças e jovens, as mudanças na sociedade e a globalização.

Relação entre razão e emoção no pensamento complexo

“Eu quero abordar a, que é o tipo de pensamento que eu pratico e elaborei. Costumamos identificar o homem como homo sapiens, ou seja, dotado da razão, mas nessa definição clássica não há a emoção e o delírio. Mesmo um matemático com uma atividade unicamente racional sente ao mesmo tempo a paixão pela matemática. Não há razão fria – apenas talvez em alguns economistas ou tecnocratas que consideram os seres humanos como objetos nos quais podemos botar cifras. Se não, sempre temos a presença da emoção.

O ser humano é um ser de paixão, que pode ter sentimentos muito fortes que, no limite, podem levá-lo ao delírio. Cada um de nós pode participar de fenômenos de histeria quando fazemos parte de uma multidão ou se estamos em crise de uma certa loucura, algo que depois podemos nos arrepender. Essa loucura não se encontra apenas nos indivíduos, mas num processo histórico. A paixão deve ser sempre controlada pela razão. Se não, podemos sentir um amor cego por alguém que se aproveita de nós, ou viver a paixão por um líder – como um Hitler ou Stalin.  

A primeira lição dialógica: é preciso ser guiado ao mesmo tempo pela razão e pela paixão, e isso é navegar pela vida. O ser humano não é apenas um fabricante ou usuário de ferramenta, um homo faber, mas alguém que vive com mitos, crenças e religiões.”

A prosa e a poesia da vida

“Do ponto de vista da vida, temos a prosa e a poesia. A prosa da vida são as coisas que somos obrigados a fazer para ganharmos o pão de cada dia. Já a poesia da vida é o que nos dá o fervor, a emoção, a exaltação, o jogo, a beleza, o fato de contemplar o oceano, as gaivotas e as praias. Infelizmente, nossas sociedades são invadidas pela prosa, mas devemos resistir delas em nossas amizades e relações humanas. Poesia na vida é fundamental. A poesia é um aspecto de emoção feliz, que nos coloca no deslumbramento e no êxtase.”

A razão e a afetividade

“A afetividade pode ocorrer no âmago da racionalidade. Precisamos promover uma razão sensível e aberta: que conhece seus limites, que aceita o que não pode conhecer – como o mistério do mundo e de coisas que fogem de seu controle –, e que aceita as contradições. Noções que podem ser contraditórias, como vida e morte, podem ser complementares, como tudo o que é inseparável. A razão sensível proporciona emoções. O pensamento precisa dialogar com a mitologia e o pensamento simbólico, por exemplo. A razão precisa ser vigilante contra seus próprios limites e sua tendência de ter certezas absolutas.”

Exploração das emoções

preciso estar atento à exploração da emoção para fins econômicos ou políticos, na propaganda ou na mídia. Muitos costumam selecionar crimes ou catástrofes, ou mostrar crianças e idosos sorrindo, para causar emoções e impulsionar determinadas ações. Há um problema da exploração e controle da emoção que provoca guerras, levanta histeria designando culpados ou excluindo minorias, sendo racista, machista e homofóbico.”

Papel das humanidades e da educação

“Percebemos qual o papel essencial da literatura, da filosofia, do cinema e das artes. O romance, por exemplo, nos comove porque seguimos os personagens e conhecemos as relações sociais, o que a ciência é incapaz de fazer. Um romance, o cinema ou o teatro nos ensinam sobre a vida.

Não basta uma educação baseada apenas na técnica e na racionalidade: a educação deve ter o papel fundamental das humanidades, que nos ensina a meditar sobre a vida e que enriquece nosso destino e o dos outros. Fui marcado por leituras e filmes, e penso que isso deve estar presente na mente dos professores. A tendência atual é diminuir o papel das humanidades e das artes para prevalecer as ciências – e é claro que devemos ter engenheiros e matemáticos –, mas o problema da cultura é muito grande por causa da dissociação entre a cultura científica e as humanidades. A reflexão da ciência não chega aos humanistas e a reflexão dos humanistas faz falta aos cientistas.

A missão do ensino é fundamental para o ser humano, já que ajuda o ser a dar o melhor de si mesmo e evitar o pior. Somos potencialmente homo sapiens, seres razoáveis e delirantes, pensantes e afetivos. Devemos buscar que esse ‘eu’ seja cultivado sempre com o ‘você’.”

Primeira conclusão: o ser humano é complexo e paradoxal

“Vamos à primeira conclusão: é preciso ter racionalidade na emoção e na paixão. A razão, a emoção e a paixão são necessárias e insuficientes. Relacionar tudo isso é essencial.

A contribuição do pensamento complexo é de salientar que pode ser aceito tudo o que parecer contraditório e paradoxal. Por exemplo: não há autonomia sem dependência. É preciso romper com o pensamento linear, aquele que liga uma só causa a um efeito.”

Segunda conclusão: devemos ensinar as crianças a questionar

“A segunda conclusão diz respeito ao ensino: a qualidade de qualquer docente deve ser praticar o eros, que é o amor, tanto para a matéria que ensina quanto pelo estudante. O professor deve lembrar que a criança é um filósofo selvagem e um poeta selvagem.

Filósofo selvagem porque é aquele que faz as perguntas fundamentais. Infelizmente, fazemos com que as crianças percam esse tipo de pensamento e se adaptem a um pequeno compartimento social. Devemos desenvolver nelas a capacidade de questionar, já que a chave de qualquer filosofia é a curiosidade. Essa capacidade poética deve ser valorizada enquanto criança e mantida em toda a vida adulta.

A criança é um poeta selvagem porque se surpreende e olha com certo deslumbramento para as coisas. O adolescente tem aspirações profundas, talvez utópicas ou insensatas, mas o que fazemos normalmente é domesticá-lo para esquecer a tudo. Todo o sistema educacional que conhecemos foi feito para degradar e transformar o indivíduo numa máquina específica dentro da máquina social. O que se pede para as pessoas é que elas se resignem, mas os professores devem ajudar todos a desenvolver essa dialógica entre a razão, a emoção e a paixão.”

Globalização e comunidade humana: conclusão final

“Estamos em uma época que, com a globalização, todos os seres humanos do mundo sofrem os mesmos perigos e ameaças: uma ameaça da biosfera que está precipitando, principalmente quando os governos deixam que essa degradação avance, como aqui na Amazônia. Temos o desenvolvimento das armas, a destruição maciça e as armas cibernéticas que podem destruir a sociedade. Há esse fenômeno extraordinário que é a globalização técnica e econômica, mas ao invés de fazer com que as pessoas se entendam melhor, as coloca em situações de crise e de angústia. E, ao invés de saberem que têm um destino em comum, se fecham em uma identidade particular e singular.

Esquecem que todos somos humanos, da mesma aventura que nos leva não sei pra onde. É preciso situar novamente o sentido da aventura humana. Cada um de nós não é somente um cidadão de uma nação, mas uma partícula dessa aventura que começou na pré-história. Muito antes da história, há um conflito inseparável entre as forças da união e amor, e as forças da destruição, da guerra e do conflito. Cada vez é uma delas que vai predominar. Há uma única certeza: é preciso saber tomar partido pelas forças de eros, do amor, da fraternidade para toda a humanidade.”

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Assista à apresentação completa de Edgar Morin no 3º Congresso Socioemocional LIV:

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