Professores que inspiram o mundo: três relatos emocionantes!


“Vejam quem está aqui: são três negros da escola pública. Vocês viram o que a educação fez com a gente? Ela nos trouxe até este palco!” – Janaína Barros.

Mais do que transmitir conhecimentos, um professor inspirador é aquele que cria espaços de troca e diálogo com seus alunos. Buscando exemplificar esse conceito da melhor maneira possível, o LIV – Laboratório Inteligência de Vida decidiu trazer ao palco 3º Congresso Socioemocional LIV, realizado no Rio de Janeiro nos dias 7 e 8 de junho, três educadores brasileiros que brilham dentro e fora das salas de aula: Gina Vieira Pontes, Janaína Barros e Diego Mahfouz.

O objetivo era simples, mas desafiador: reunir esse grupo de professores premiados e reconhecidos mundialmente para inspirar outros educadores e gestores a fazerem mais por seus alunos. Abaixo, conheça e se emocione com o depoimento e a história de cada um!

“Temos que olhar nos alunos o que eles têm de força e potência, e não de fragilidade”

Quem é:

Gina Vieira Pontes é criadora do projeto “Mulheres Inspiradoras”, iniciativa desenvolvida na rede pública de ensino do Distrito Federal que busca promover uma reflexão sobre histórias de mulheres que impactaram diferentes áreas da sociedade. Na proposta, alunos buscam também as mulheres inspiradoras de suas vidas. O projeto já foi desenvolvido em várias escolas e cada professor pode adaptá-lo conforme deseja. A iniciativa conquistou diversos prêmios, entre eles o primeiro lugar no Prêmio Ibero-Americano de Educação e Direitos Humanos.

Sua história:

“O que melhor me define é dizer que sou professora da educação básica na escola pública há 28 anos. Para falar da minha trajetória, tenho que falar do seu Moisés, meu pai, que não sabia ler nem escrever. Migrou pra Brasília e encontrou minha mãe. Ela nunca pode frequentar a escola e teve 8 filhos, em Ceilândia, uma área de grande de vulnerabilidade social à época. Meus pais me ensinaram a amar a escola justamente porque não tiveram acesso aos estudos. Na minha casa, a escola era sagrada.

Quando eu entrei na escola, aos 7 anos, eu já era uma criança marcada pelo racismo, sempre esperando por safanão e xingamentos. Por não saber como lidar com isso, passei a me sentir responsável pelas agressões que sofria. Tomei a decisão de que eu seria invisível, então entrava calada em sala e não fazia perguntas. Mas como uma criança silenciada não aprende, passei para a 2ª série sem aprender a ler e a escrever. Aos 8 anos encontrei a professora Creuza, que tinha a fama de ser muito rígida. Apesar de todos os meus esforços de ser invisível, um dia ela me chamou à mesa dela. Pensei que levaria uma bronca, mas ela me colocou no colo, mudou minha história e meu destino. Mudei a percepção de mim mesma e tomei a decisão mais importante da minha vida: eu não seria mais invisível e me tornaria professora.

Aos 17 anos, me formei. Aos 19, trabalhava como alfabetizadora e dez anos depois cursei Letras. Passei a ensinar adolescentes, mas não conseguia vê-los virar as costas para a escola. Aquilo me impactou tanto que adoeci. O que seria da juventude sem educação? Pensei em desistir da profissão, mas ao invés disso resolvi estudar. Fiz especializações e me dei conta que temos um modelo educacional ultrapassado, que silencia a juventude, que trabalha na perspectiva de promover a repetição e o condicionamento. Não busca formar pessoas reflexivas e criativas, com capacidade de imaginação. Meu desafio era ter a coragem de contestar a cultura escolar, entender como os adolescentes aprendem e mudar minha prática pedagógica.

Além de ouvir os teóricos, tinha que prestar atenção ao que meus alunos falavam. Percebi que eles gostavam muito de redes sociais – primeiro Orkut e depois Facebook – e passei a usar essas ferramentas na minha aula. Lá vi uma aluna de 13 anos publicando um vídeo com grande apelo erótico, com uma música que desqualificava as mulheres. Aquilo me preocupou muito porque acredito que o professor tem que prestar atenção no aluno na sua integralidade. Na nossa cultura, era esse o modelo predominante de mulher, então concluí que precisava apresentar às meninas outras referências.

Assim surge o projeto “Mulheres Inspiradoras”, que tem como principal ação a leitura pelos alunos de obras literárias escritas por mulheres e biografias de grandes nomes femininos da nossa história. Na última etapa do projeto com o 9º ano, propus que os alunos e alunas entrevistassem as mulheres inspiradoras de suas vidas. Percebi que havia vínculos fortes com aquelas mães, avós e bisavós, mas muitas lacunas nas informações. Então, os alunos complementavam os textos e tinham grandes surpresas quando conheciam mais detalhes. As histórias viraram um livro de mesmo nome do projeto.

A ação superou nossas expectativas: o IDEB da escola aumentou, os alunos ampliaram o repertório de leitura e escrita e fortaleceram vínculos familiares. Além disso, ganhamos o primeiro lugar no 4º Prêmio Nacional de Educação em Direitos Humanos; o 8º Prêmio Professores do Brasil como melhor experiência pedagógica dos anos finais do ensino fundamental; o 10º Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero; e representamos o Brasil no Prêmio Ibero-Americano de Educação em Direitos Humanos, conquistando o 1º lugar! Desde 2017, graças a um acordo de cooperação internacional, o projeto “Mulheres Inspiradoras” chegou a mais escolas do Distrito Federal. Hoje, está presente também na rede municipal de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.

A nossa proposta em outras escolas tem a intenção de oferecer aos professores a oportunidade de refletirem sobre metodologias ativas, protagonismo juvenil, ressignificação do espaço escolar, questões étnico-raciais e de gênero, e a partir daí construir uma proposta pedagógica diferenciada capaz que engajar os jovens. Mas o que supera todos esses prêmios foram dois momentos. Um deles ocorreu quando encontrei meus alunos de 9º ano em uma segunda-feira de manhã e eles disseram: “Professora, não via a hora de sua aula chegar”. Como educadores, temos que ter o compromisso de transformar a aprendizagem em um momento prazeroso, significativo. Se não tem sentido para eles, não tem sentido para nós.

Outro momento foi quando encontrei a minha professora Creuza, 34 anos após ter tido aula com ela. E aproveitei para fazer uma pergunta guardada em meu coração: ‘por que, apesar dos meus esforços para ser invisível, você me notou?’ Você olhava para mim e via aquela criança assustada, machucada pelo racismo, sempre na expectativa de um safanão e de um xingamento? Ela me disse: ‘eu não via nada disso, só uma criança que queria aprender’. Naquele momento, ela me deu um grande aprendizado: temos que olhar para os estudantes no que eles têm de força e potência, e não de fragilidade. Embora me faltasse muita coisa naquela época, a vontade de aprender me tomava inteira. Meu desejo é que todos que trabalham com educação firmem o compromisso de olhar para a força e potência de nossos jovens e crianças.”

“Tem quatro palavras que são importantes para a minha fala: escolhas, futuro, empatia e felicidade”

Quem é: Janaína Barros, gestora escolar da cidade de Seabra, na Bahia. Formada em Pedagogia, especialista em Didática e Currículo, faz parte do Grupo de Talentos da Fundação Lemann. Também foi ganhadora do Prêmio Educador Nota 10 e representante do Brasil na América Latina pelo Reduca (Rele Latino-americana de Educação).H

Sua história:

“Comecei a lecionar aos 18 anos em uma classe multisseriada, que atendia turmas de alfabetização até o 5º ano, numa comunidade quilombola. Percorria 70 km de ônibus para chegar até ela e caminhava mais um pouco. Nas primeiras aulas, muita afoita, levei revistas, pedi que eles levassem para suas casas e recortassem algumas palavras. No outro dia, eles não fizeram a tarefa e nem devolveram as publicações. Levei mais revistas e tentei a proposta de novo. E nada. Fui atrás das famílias e soube que aquelas páginas estavam nas paredes das casas, enfeitando os cômodos. Era a primeira vez que aquela comunidade tinha acesso a materiais coloridos como aqueles.

Compreendi então a importância de conhecer a comunidade em que se trabalha. Eu poderia achar que eles eram irresponsáveis e ter outras tantas conclusões, mas na verdade eles tinham feito daquilo um dos momentos mais felizes da vida, que é ter acesso a algo desconhecido. Aos 20 anos, passei a ser coordenadora pedagógica, formando professores que tinham sido meus professores do magistério. Cheguei a passar dois anos fora da educação, achando que a profissão não era para mim.

Seabra, minha cidade, fica na Chapada Diamantina e tem 50 mil habitantes. Lá não temos biblioteca e nem livrarias, e a compra online faz com que os livros cheguem o dobro do preço de outras cidades por causa do frete. A internet é instável. Então, passei a frequentar uma biblioteca ligada à universidade e li tudo o que eu podia sobre alfabetização, leitura e produção de texto. Retornei para a escola e fui ganhadora do Prêmio Educador Nota 10 falando sobre formação de professores que ensina e aprende no contato com as classes populares. É também por isso que essa ligação com a comunidade mexe muito comigo.

Vocês já perceberam que quando uma comunidade começa a crescer, aparece uma igreja, um mercado e uma escola? Uma escola só existe porque existem as pessoas. O aluno pertence a uma escola, a uma família, a uma comunidade, mas também ao mundo. Os educadores devem oferecer a oportunidade de desbravar o mundo.

Vou contar minhas histórias de quem desbrava o mundo. Recentemente passei a atuar como coordenadora da secretaria estadual da Bahia. Abandonei um bocado de coisas e me enveredei para o Ensino Médio, incomodada que a rede ocupa o último lugar no ranking do IDEB. No colégio estadual da minha cidade, 40% dos 1.200 alunos são reprovados. Conversando com os professores, eles me deram inúmeros motivos para isso ocorrer e percebi que são várias as realidades.

Hoje estou muito interessada em compreender o perfil de 140 desses: já sei que 94 são meninos, alguns têm depressão ou ansiedade, são medicados, não conseguem levantar da cama para ir à escola ou cuidam de pais com problemas relacionados às emoções. Tenho 4 alunos reprovados há 3 anos consecutivos porque não conseguem ir à escola às segundas-feiras por causa de seus trabalhos.

Também perguntei aos líderes de classe quem eram os melhores alunos. E todos dos 3º anos me indicaram o Tião. Descobrimos que ele não sabe ler e escrever, mas tem uma excelente escuta, resolve qualquer problema oralmente de Matemática, Química e Física, e arrasa na argumentação em Sociologia e Filosofia. Toda escola, coordenadores e professores precisam estar atento aos porquês que existem dentro da escola. Por que tem desinteresse? Por que tem nota baixa? Essa desconfiança é uma oportunidade de nos fazer aprender, ensinar e fazer boas escolhas. Se não entendemos, perdemos a oportunidade de transformar desafios em possibilidades de agir. Os problemas de 2019 não apareceram em 2019. Eles são os mesmos há décadas, como desinteresse, abandono etc., mas quando vamos pensar neles como oportunidades?

“O que me deixa mais feliz é notar os estudantes largando o mundo das drogas e da violência, encontrando na escola uma possibilidade de mudança de vida”

Quem é: Diego Mahfouz é escritor, professor e diretor escolar. Ganhador do Prêmio Educador Nota 10 e finalista do Global Teacher Prize em 2018, considerado o Nobel da Educação.H

Sua história: 

“Minha mãe queria que eu fosse engenheiro civil, e eu até fui atrás disso. Mas acabei prestando magistério, trabalhei como voluntário em uma escola e depois fiz Faculdade de Pedagogia. Lá, encontrei uma professora inspiradora que me dava aula de tecnologia na educação e me incentivou muito. Para ela, eu dizia que queria transformar a educação!

Comecei a trabalhar em um projeto de educação integral em minha cidade, São José do Rio Preto, e acompanhava sempre as notícias de violência, tráfico de drogas, porte de armas e depredação da Escola Municipal Darcy Ribeiro. Até que fui chamado, com uma colega diretora, para assumi-la. E nos disseram: ‘Vocês podem trabalhar nela só neste ano. Só peço que consigam deixar a escola em pé e que nenhuma tragédia ocorra com os alunos’. Pensei muito até que resolvi aceitar. Quando cheguei, vi que tinham incendiado uma sala de aula e quebrado todos os vasos sanitários. As salas não tinham portas e as paredes eram pichadas. Nos dias seguintes, a diretora foi agredida e foi embora.

Eu assumi como diretor e decidi então me apresentar para os 500 alunos daquele turno. Subi num palco, vi que os professores se trancaram numa sala, e então vi fumaça saindo dos banheiros e cartazes escritos ‘rebelião’. Os alunos jogaram maçã em mim, tambores de lixo e água. Sentei no chão, disse que tinha vindo pra ficar e que queria ouvi-los. Passei o microfone para cada um e ouvi o que tinham a dizer: contaram que não participavam das decisões da escola, que ali havia sempre muita suspensão, e que a escola era feia e depredada. 

Depois disso, elaboramos um questionário perguntando as expectativas das famílias em relação à escola, quais os sonhos e as dificuldades vividas no ano anterior. A partir das respostas, montamos o projeto “Minha escola, reconstrução coletiva” para procurar atender cada dificuldade. Então começamos a transformar a vida da escola, sempre envolvendo alunos e comunidade. O que me deixa mais feliz é notar os estudantes largando o mundo das drogas e encontrando na escola uma possibilidade de mudança de vida.

Tive que apartar muita briga nesse processo e enfrentar resistência de professores, funcionários, alunos e familiares. Também me frustrei com a baixa participação na reunião de pais – inicialmente havia apenas nove presentes, sendo que a escola tinha 1.070 alunos! Aos poucos e com muitas ações, a situação foi mudando. 

Escrevi um e-mail para as outras escolas pedindo restos de tinta para pintar a escola. Vendo esse movimento, arrecadamos o que era necessário e ainda tivemos grande adesão da comunidade para colaborar na pintura.

Abrimos a escola no final de semana para a vizinhança, incluindo o espaço da biblioteca, que passou a receber doações. Como não há funcionários, os pais trabalham como voluntários e se prontificam para fazer manutenção para deixar os espaços sempre em ordem. 

Preparamos uma carteirinha para facilitar o registro das faltas dos estudantes e quando algum está ausente por mais de dois dias eu visito as casas para conversar com as famílias. Também realizamos uma assembleia mensal, ouvindo as críticas, elogios, sugestões e refletindo sobre os assuntos apontados. Para atrair os alunos para as aulas nas sextas-feiras, promovemos o show de talentos em que se apresentam com números de dança ou música, contam piadas, tocam instrumentos. A presença na escola aumentou muito! Além disso, pedimos apoio para um carro de som fazer os avisos da escola na comunidade, como reuniões e festas.

Tínhamos áreas de intenso tráfico de drogas, então naqueles locais construímos praças de leitura, com apoio da comunidade. Foi muito difícil, mas aos poucos vemos melhora na convivência e na aprendizagem dos estudantes, inclusive com aumento do IDEB. Através destes projetos fomos vencedores dos prêmios:  Educador Nota 10 e Educador do Ano da Fundação Victor Civita, além de recebermos o Oscar da Educação pela Academia Brasileira de Educação do Rio de Janeiro. Depois de tudo isso, quando eu ia imaginar que o Bill Gates falaria meu nome em Dubai, quando representei o Brasil no Global Teacher Prize, hein?”

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