Saúde mental na escola: cenário, desafio e caminhos possíveis

Se você acompanha este blog, sabe que o LIV – Laboratório Inteligência de Vida ressalta a importância de darmos voz às emoções e de sabermos que o sofrimento faz parte da natureza humana. Contudo, sempre gostamos de destacar que para aprofundar esse debate e falar de saúde mental, especialmente no ambiente da escola, precisamos nos cercar de referências qualificadas sobre tema.

Exatamente para colaborar com educadores e famílias na reflexão desse assunto, convidamos para o 3º Congresso Socioemocional LIV dois renomados especialistas em educação e desenvolvimento humano: o psicanalista Christian Dunker e a psicóloga Rosely Sayão. Em um bate-papo agradável – mesmo sobre um tema tão denso quanto saúde mental – os especialistas explicaram ao público de 1.500 pessoas o cenário atual, o desafio que temos na formação de crianças e adolescentes, e os caminhos possíveis para resolvê-lo.

Não é de hoje que eles são considerados nomes de peso entre pais e educadores. Sayão é consultora educacional com mais de 30 anos de experiência, colunista do jornal Folha de S.Paulo e autora de diversos livros sobre comportamento e relação entre família e escola. Dunker é professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), foi ganhador do Prêmio Jabuti de 2012 com a obra Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalista e recebeu 2º lugar do mesmo prêmio em 2016 com o livro Mal-estar, Sofrimento e Sintoma.

A seguir, leia sobre as principais ideias apresentadas por eles durante o Congresso.

O cenário em que vivemos: loucura na cidade e com as tecnologias

Segundo Dunker, no cenário em que vivemos hoje nas grandes cidades, as pessoas muitas vezes se sentem loucas e impotentes, e a tecnologia colabora com esses sentimentos. Ele explica que, enquanto os que nasceram depois de 1995 são nativos digitais, os demais ainda estão se adaptando. Esse cenário acarreta mudanças no trabalho, na forma de desejar e na linguagem, e está alterando a experiência em relação ao sofrimento e à saúde. “Dados confirmam que há um incremento nos diagnósticos na área de saúde mental. São mais de 100 novas doenças identificadas em 50 anos! A Organização Mundial de Saúde incluiu o suicídio entre os dez desafios que precisam ser enfrentados”.

O desafio: quando o sofrimento passa a ser um diagnóstico

Ao mesmo tempo, questionou Dunker, quantas crianças já foram identificadas com dislexia e hiperatividade, e na verdade não tinham esses transtornos? “A nossa hipótese é que a maior parte dos casos de transtornos mentais são formas de sofrimento maltratados. Antes de a pessoa ter um sintoma, como transtorno de déficit de atenção, ansiedade ou depressão, ela tem um sofrimento. E quem sofre mostra sinais evidentes, como o isolamento ou a automutilação. O sofrimento não se resolve tomando algum remédio ou substituindo por um celular ou passeio no shopping, mas pode ser enfrentado com o que eu chamo de ‘habilidade socioemocional-mãe’, ou seja, a escuta”, afirmou.

O psicanalista também explicou que a escuta não ocorre apenas em sessões com psicólogo, e sim em diversos contextos e horas. Ela dá trabalho e é demorada, porque exige a abertura para outra realidade. “Mesmo com mais possibilidades de diálogo trazidas pelas tecnologias, a escuta não aumentou”, destacou ele. Durante o bate-papo, Sayão apontou a diferença do escutar para o ouvir ou obedecer, dizendo que a primeira exige “sair do papel de poder e das respostas imediatas”. Dunker complementou: “Se os educadores apenas dizem ‘isso que você está sentindo, quando casa passa’ ou ‘isso é falta de autoestima’ e ignoram as emoções, eles recuam com as responsabilidades em relação ao outro”.

“A nossa hipótese é que a maior parte dos casos de transtornos mentais são formas de sofrimento maltratados. Antes de o paciente ter um sintoma, como transtorno de déficit de atenção, ansiedade ou depressão, essa pessoa tem um sofrimento.”

Christian Dunker

Caminhos possíveis: o papel da escola para a escuta

Sayão também chamou atenção para o papel da escola nesse contexto: “Por que não ensinamos os alunos a escutar? Só valorizamos quem fala! Quem está ouvindo, refletindo sobre o que foi dito em silêncio não se destaca na turma. Na nossa cultura, escutar não é um valor, só é valorizado quem fala e participa”. Ela afirmou que a escola normalmente escuta com objetividade, pelo discurso verbal, mas que nem tudo é dito com essa linguagem. E provocou Dunker: “Você acha que, mesmo assim, é possível acontecer a escuta?”

Ele prontamente respondeu:“Sim, a escuta é possível! No meu livro escrito com Cláudio Thebas, chamado O palhaço e o psicanalista: como escutar os outros pode transformar vidas, apontamos que a escuta precisa de quatro condições, todas palavras que começam com a letra H: hospitalidade (abrir a porta e a alma para o outro, acolher), hospital (no sentido de cuidado), hospício (sabendo que a escuta tira a gente do lugar, confunde) e hospedeiro (depois que a pessoa ouve, precisa dar um destino, transmitir)”.

Sayão chamou atenção para a relação entre comunidade e escola, que segundo ela é tratada de maneira às vezes hipócrita: “Dizemos que é uma parceria, mas é uma luta de poder, sendo que a escola é uma cultura organizada enquanto os pais não são nem um grupo, então eles já saem perdendo. É possível traçar um novo trajeto: a escola pode pensar verdadeiramente no que quer durante uma conversa com os pais, e vice-versa”, afirmou.

E como fazer isso? A psicóloga diz que não há protocolos estabelecidos, mas caminhos que podem ser trilhados. Cada escola pode dialogar com as necessidades da comunidade. “Há lugar para todos, alunos e professores. Não precisamos ser iguais, medianos ou medíocres”, disse. A escola representa o mundo para as crianças, então é importante que exista diversidade. “Isso pode colaborar, inclusive, para promover uma boa saúde mental!”, completou.

“Por que não ensinamos os alunos a escutar? Só valorizamos quem fala! Quem está ouvindo, refletindo sobre o que foi dito, em silêncio, não se destaca na turma. Na nossa cultura, escutar não é um valor, só é valorizado quem fala e participa”

Rosely Sayão

1 pensamento sobre “Saúde mental na escola: cenário, desafio e caminhos possíveis”

  1. As escolas dão mais valor à competição do que à cooperação, entre os alunos. É por isso que eu sou muito fã da metodologia de ensino da Escola da Ponte, em Portugal. Adoro o trabalho de vocês (LIV)… Parabéns!

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