Falando sobre sentimentos e depressão na escola

No início de 2019, a psicóloga e consultora pedagógica do LIV – Laboratório Inteligência de Vida, Renata Ishida, foi convidada para participar de uma gravação no canal de YouTube RelaxAí, apresentado pelo professor Rafael Sgarb, do Colégio Bahiense (Rio de Janeiro), e criado para falar com alunos, pais e outros professores de maneira direta sobre temas relacionados à educação,

Em sua participação, Ishida falou sobre sentimentos e sobre depressão na adolescência, assuntos que por vezes acabam ficando de fora do debate escolar. Para você que ainda não viu esse material, listamos a seguir os principais destaques. Confira:

  • Por que é importante falar sobre sentimentos na escola?

De acordo com Ishida, a importância desse debate vem sendo verificada em diferentes estudos e em várias partes do mundo, impactando todas as áreas da vida humana, e a escola tem papel fundamental nisso. Além de contribuir para a vida pessoal e futuro dos estudantes, a abertura da escola para falar de sentimentos e para incentivar o desenvolvimento das habilidades socioemocionais também influencia o desempenho acadêmico, contribui para a saúde mental e oferece espaço de escuta e troca para falar sobre todos os sentimentos. “Como um adolescente vai aprender a ser colaborativo, por exemplo, se ele só fica em casa jogando videogame? As pessoas só aprendem a colaborar em equipe. E qual o espaço onde os adolescentes mais convivem no coletivo? A escola”, afirma a psicóloga.

  • Como a sociedade contemporânea tem afetado a saúde mental dos adolescentes?

A especialista ressalta que vivemos em um momento na sociedade no qual existe a hipervalorização do indivíduo, e criou-se uma cultura de dizer às pessoas que elas são responsáveis por seus problemas, a clássica frase “cada um com seus problemas”. Nesse sentido, criar redes de apoio que agem como espaços de troca, baseadas em relações de intimidade entre as pessoas, são essenciais. Criar essas relações, em casa, na comunidade e na escola torna mais fácil para quem precisa de ajuda encontrar espaço para se abrir. A partir disso, explica Ishida, é possível se abrir para falar e receber apoio de outras pessoas, especialmente em momentos de maior dificuldade. A especialista alerta também que criar mais intimidade com as pessoas não deve ser confundido com a simples exposição da vida na rede social, tão comum atualmente.

  • As escolas podem se tornar essas redes de apoio?

Como os alunos passam muito tempo na escola, muitas vezes é ali que surgem os vínculos. Por isso, é comum que eles encontrem nesse espaço um meio de se abrir ou pedir ajuda em situações difíceis, com mais facilidade até do que no ambiente familiar. Para a consultora pedagógica do LIV, o papel da escola é exatamente receber o aluno e construir com ele essa relação de confiança.

  • Por que os adolescentes têm dificuldade de falar sobre alguns temas como tristeza, depressão e ansiedade?

Segundo Ishida, esses temas têm sido malvistos na sociedade devido a uma cultura de “felicidade a todo custo” que ganhou força principalmente com as redes sociais. “Não é sempre que uma pessoa está feliz, maquiada, fazendo coisas interessantes. Na vida real, fora das redes socais, ela pode estar em casa entediada”. Para a psicóloga, essa realidade forçada pode afetar a tristeza e pode, em alguns casos, levar a quadros de adoecimento, como ansiedade e depressão. Entender que sentimentos desagradáveis como a tristezas são parte da vida e poder falar sobre eles abertamente é, segundo a especialista, importante para o desenvolvimento. “Se não ficarmos triste, não há amadurecimento. É preciso compreender que há momentos feliz e tristes”.

  • E o que fazer quando a tristeza se torna um quadro de depressão?
    Ishida explica que a depressão é um quadro de adoecimento. Significa que a pessoa vai ter sintomas, como em qualquer doença, que as paralisam e geram restrições, compulsões etc. Nesses casos, não é a mãe ou o pai dando uma bronca ou até um presente para reverter o quadro que irá ajudar. Mas para chegar à possibilidade de identificar essas situações entre os adolescentes, explica a psicóloga, é fundamental manter uma rede de apoio ativa em casa e na escola, onde eles se sintam seguros e pertencentes. Ela lembra ainda que a depressão não tem “cara” e não pode ser confundida com preguiça ou mau humor, por exemplo. “Cada um tem uma vivência muito particular de como sente sua dor, e isso nos convoca a lembrar que precisamos escutar o outro. A depressão de um não é a mesma de outro, por isso a importância de trabalhar a empatia e os relacionamentos, e a escuta”.

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