“Não quero mais ir à escola”. E agora, pais?

Se você é adulto e trabalha fora, sabe que, por mais que goste do seu emprego, não é todo dia que está com vontade de sair de casa. E sabe também que isso nem sempre tem a ver com preguiça, correto? Quando se trata da relação de crianças, adolescentes e suas escolas, a coisa se dá de maneira semelhante. Contudo, na maioria dos casos, esse desejo de se afastar do ambiente escolar pode ter como origem alguns fatores relacionais, explica a psicóloga e especialista do Laboratório Inteligência de Vida, Márcia Frederico. E, quando essa questão se torna frequente, deve ser motivo para os pais colocarem uma pulga atrás da orelha. “Quando eles dizem que, de fato, não querem mais ir à escola, é um motivo para os pais terem desconfiança e começarem a investigar”, afirma.

A seguir, elencamos junto com a especialista do LIV quatro pontos importantes a serem considerados por mães, pais e responsáveis quando um estudante afirma que não quer mais ir à escola. Confira:

1. A origem do problema nem sempre é simples.

Esse é um fator importante: não achar que há uma causa única para as coisas da vida. Dentro da visão contemporânea, que considera a complexidade humana e a visão sistêmica, sempre terão muitos fatores que podem causar um sintoma, explica a psicóloga, por isso é importante olhar o quadro geral. “Isso vai abrindo o olhar, a percepção e o cuidado”, destaca. Além disso, é preciso analisar a parte relacional por trás desse desejo. “Tem situações que são mais deflagradas, ou seja, às vezes a criança realmente está sofrendo algum tipo de hostilidade por parte de alguém da turma, às vezes é um professor ou funcionário que tem uma atitude mais agressiva, autoritária, de forma que é ameaçador para o aluno. Mas há casos mais variados e complexos. É preciso investigar o que está acontecendo sem acusar”.

2. A escola é parceira e joga no mesmo time.

Por falar em não acusar, a psicóloga destaca quão benéfica pode ser a relação das famílias com a escola quando ela não é baseada em desconfiança. “Na escola, estamos querendo jogar do mesmo lado, não são times opostos. Por isso é muito importante a atitude tanto dos pais quanto da instituição em colaborar e pensar junto em estratégias que possam ajudar o estudante”. No caso de ele não querer ir mais às aulas, ela recomenda que as famílias procurem ajuda, por exemplo, para dar mais atenção ao que vem se passando com seus filhos no ambiente escolar. “Às vezes é algo que fica quase invisível aos olhos, mas com essa atenção e intenção de ajudar de verdade, pode ser mais fácil descobrir e perceber o que está causando, ou uma das causas, pelo menos”.

3. Crianças e adolescentes não devem ser analisados sob a mesma lente.

Segundo Márcia Frederico, a questão relacional é a causa mais comum de afastamento da escola entre crianças. Com adolescentes, costuma também ser algo relacionado a ele próprio, a um sentimento, e a falta de interesse pelos estudos pode ser apenas uma resposta. Além disso, para a criança menor às vezes é difícil verbalizar o que ela está sentindo. Mesmo que os pais perguntem, há vezes em que não conseguem detectar exatamente o que está causando hostilidade para ela não querer ir à escola. Para identificar melhor essas causas, é importante que a família procure a ajuda dos orientadores, da coordenação, e dos próprios professores se possível, para que observem o que está acontecendo. No caso dos mais velhos, também é preciso analisar questões de saúde mental, explica a especialista. “Quando o adolescente começa a entrar numa fase de falta de interesse, de tédio, e de achar que nada daquilo tem utilidade, ou quando não tem esperança ou perspectiva de futuro, pode denotar algum estado depressivo e a investigação precisa ir além”.

4. “Você vai de qualquer maneira” não é a melhor resposta.

De acordo com a consultora do LIV, uma fala hostil e ameaçadora pode ser exatamente aquilo que a criança ou o adolescente está evitando na escola. E escutar dos pais respostas como “você tem que ir de qualquer maneira, é obrigatório, não pode faltar à aula” pode não ser uma estratégia acolhedora. É claro que, quando um pai ou mãe diz algo desse tipo, não é necessariamente por autoritarismo, mas sim para pontuar a importância de ir para a escola. Ainda assim, é importante que essa ida seja saudável para eles. Por isso, é melhor investir em saber o que está acontecendo do que só repetir a frase acima. Além disso, explica Márcia Frederico, a tensão não vai ajudar a chegar à raiz do problema. “É preciso primeiro entender e saber dar abertura para o filho falar, abrir um espaço para a empatia”. Assim, os pais devem procurar construir um canal para conversar abertamente com seus filhos, demonstrando apoio quando eles precisam. Mas caso isso seja difícil, é possível também recorrer a alguém da família, uma tia, um primo ou avô, por exemplo, uma pessoa próxima com quem a criança ou o adolescente tenha mais disponibilidade de conversar. A ajuda profissional de um psicólogo também é recomendada.

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