Como falar sobre sentimentos pode ajudar a reduzir o choque de gerações

Sabe quando você conversa com alguém de outra geração e parece que não está falando a mesma língua? Para Amaral Cunha, diretor da Escola Eleva, no Rio de Janeiro, esse choque de ideias não precisa ser motivo de problema, mas sim uma oportunidade de crescimento e desenvolvimento da inteligência socioemocional. Em entrevista ao blog do LIV, o educador, que atualmente está à frente de uma das escolas mais renomadas do país, falou mais sobre esse tema e mostrou que, independentemente da década de nascimento, podemos buscar caminhos melhores para interagir uns com os outros. Confira:

  • Por que a inteligência socioemocional precisa ter espaço nas escolas?

R: O socioemocional já é parte do dia a dia da escola, mas a gente precisa criar um espaço para isso. Não adianta dizer que os professores vão trabalhar com o tema naturalmente porque somos de gerações diferentes. No caso dos professores, muitos vieram de geração Millennial (ou Y), que é de uma conectividade intensa. Já essa geração que está surgindo, a geração Z, quer entender o impacto dela no mundo, gerando sentimentos e frustrações que precisam ser trabalhados nas escolas. É uma geração que procura saber como construir um mundo melhor. Do ponto de vista socioemocional, também é uma geração que até sente fisicamente a dor da injustiça, a dor do dia a dia. Essa geração precisa ser acolhida, ouvida e entendida. Por isso a saúde mental na escola é um grande tema e uma grande preocupação. E se a escola não se dedica a um verdadeiro currículo socioemocional, não vai conseguir ser escutada por essa geração.

  • Qual o impacto desse trabalho para o aluno e sua família?

R: Quando o professor traz o socioemocional para o dia a dia do aluno, ele se aproxima muito mais das famílias, porque eles podem falar sobre como se sentem, como foi o dia deles. Não fazer apenas ficar naquela pergunta sobre “como foi seu dia” e pronto. A família precisa ampliar isso para “o que você sentiu”, “como você viu a escola”, “como se expressa em relação a tudo isso”. O socioemocional é uma forma de diálogo. Muitos pais trazem para mim exemplos de atividades que são feitas nas aulas de LIV na escola e que estão sendo usadas em casa, bem como questões relacionadas ao controle das emoções, como controlar a raiva, por exemplo. Tem um relato engraçado de um pai que estava discutindo com a mãe e o filho chegou junto e disse: “Faz assim, você coloca a mão na barriga e aperta, com isso você vai segurar a raiva“. É aí que você percebe que é preciso sim falar sobre socioemocional.

  • Como isso contribui para reduzir o choque entre os alunos, que são de uma geração, e seus pais, que vêm de outra?

R: No mundo, a gente sempre ouve falar de conflito de gerações. Meu pai veio de uma geração chamada baby boomer (leia mais abaixo). Já eu vim de uma geração que foi muito linear, focada na busca, no sucesso. Então esse choque de gerações já existia entre nós. Para a geração de hoje, que busca um lugar no mundo e quer entender o impacto que causa nesse mundo, dialogar com a geração anterior às vezes causa uma dificuldade. Quem nunca ouviu alguém mais velho dizer: “Estou cansado desse politicamente correto“? Eu acho que, quando a gente leva tudo isso para o âmbito dos sentimentos que nos movem, não tem a diferença entre gerações. O sentimento é a base de tudo. Então, o amor, o cuidado, o ato de se preocupar com o outros, isso sim importa! Se a gente sair das causas comuns e migrar para a questão dos sentimentos, esse link entre gerações fica muito mais evidente, muito mais claro. E é papel sim da escola provocar esse diálogo sobre sentimentos, com atividades que o aluno leve para casa e converse com os pais, com abertura para falar sobre como ele se sente, o que lhe causa frustração, o que traz raiva, o que traz felicidade. Assim, todos vamos descobrir que existem mais pontos em comum entre essas ditas diferentes gerações do que parece no dia a dia, porque os sentimentos são os mesmos.

Para entender mais sobre as gerações

A divisão das pessoas em gerações é uma tendência que começou no século 20 para possibilitar a análise dos grupos sociais para além da divisão por idade, sexo e renda. De acordo com essa lógica, popularizada por inúmeras análises comportamentais, é possível explicar as diferenças culturais entre as pessoas ao analisar sua época de nascimento. Essa divisão ficou conhecida principalmente nos campos da educação e do mercado de trabalho, ajudando a explicar os comportamentos distintos de cada grupo. Saiba mais:

  • Baby Boomers: São as pessoas que nasceram entre as décadas de 1940 e 1960, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Por conta da educação e do contexto social daquele momento, foi uma geração muito focada em ascensão social e valorizavam a relação duradoura com seus trabalhos. Foi com essa geração que surgiram os primeiros movimentos globais de luta pela igualdade.
  • Geração X: São os indivíduos que nasceram entre as décadas de 1960 e 1980. Assim como seus pais, são uma geração de pessoas que valorizavam muito a estabilidade financeira e o foco no crescimento das empresas. Assim, uma característica do grupo é o apreço por bens materiais, como carros e casa própria, que denotavam sinais de estabilidade econômica e social.
  • Geração Y: São os nascidos entre 1980 e 1990 e foi a primeira geração após o fim das guerras mundiais a relativizar o conceito de sucesso. Para esse grupo, também chamado de Millennials, o trabalho é acima de tudo uma fonte de aprendizado, não necessariamente uma maneira de garantir estabilidade financeira. Também foi a primeira geração a questionar o excesso de trabalho e buscar equilíbrio na vida pessoal e profissional.
  • Geração Z: Nasceram entre a década de 1990 e os anos 2000. Chegaram ao mundo junto com boom tecnológico e isso explica o fato de estarem sempre conectados e em busca de novas oportunidades. É uma geração que valoriza o empreendedorismo, a experiência e a colaboração com pessoas próximas e distantes, principalmente graças ao uso da tecnologia.

Alpha: São os nascidos a partir de 2010. É considerada a geração da inteligência, uma vez que tem acesso a ferramentas e estímulos que as outras gerações não tiveram, como o acesso à informação ilimitada e à inteligência artificial. Composto de gente que nasceu na era digital, esse grupo tem muita facilidade para usar a tecnologia no dia a dia e, para especialistas, isso impacta diretamente no formato tradicional da educação e do mercado de trabalho, que precisam ser adaptados para dialogar com essa nova realidade.

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