Pensadores que inspiram: Donald Winnicott

Não dá para falar sobre desenvolvimento infantil sem citar o psicanalista e pediatra inglês Donald Woods Winnicott. Embora ele tenha nascido em 1896 e morrido em 1971, suas teorias sobre esse tema tiveram grande influência na psicanálise e na pedagogia a partir da segunda metade do século XX. Seus artigos científicos, resenhas e correspondências foram responsáveis por trazer um novo olhar a respeito das crianças, especialmente dos bebês, e até hoje continuam sendo referência para estudantes de pediatria, psicologia, psicanálise e educação em todo o mundo.

A origem do pensamento de Winnicott

Antes de falarmos diretamente sobre as teorias de Winnicott, é necessário contextualizar o momento em que elas surgiram. No âmbito da psicanálise, a principal influência da época era o famoso psicanalista Sigmund Freud (1856-1939). Apesar de ter se inspirado nele ao falar sobre a relação da mãe com o bebê, Winnicott, por trabalhar no atendimento pediátrico, foi além e deu maior enfoque às relações afetivas entre as crianças e as pessoas a seu redor. E esse é um dos fatores que fazem com que ele seja também uma grande influência teórica do programa LIV – Laboratório Inteligência de Vida.

Mecanismos para lidar com os sentimentos

Nessa fase em que Freud era a principal influência da psicanálise, a fala era vista como o principal método de cuidado do sofrimento e das patologias de um paciente, tendo em vista sua capacidade de abrir novas possibilidades de compreensão. Porém, a fala nem sempre traz explicitamente a vivência do sujeito, cujos desejos e sentimentos, por vezes, podem ser desconhecidos ou até mesmo rejeitados através de estratégias inconscientes para se defender da dor que eles podem provocar.

Segundo Winnicott, uma das estratégias do cérebro para lidar com essas dores é o que a psicanálise chama de projeção, ou seja, mecanismo que atribui a outras pessoas ou a objetos as qualidades, as objeções, os sentimentos e as intenções recusados emocionalmente pela própria pessoa. A projeção é um dos primeiros mecanismos de defesa desenvolvidos na infância, por isso é tão comum nos depararmos com situações em que uma criança fala que “foi o amigo que bateu em alguém” (quando na verdade foi ela mesma) ou que “o boneco está com medo” (quando na realidade é ela quem sente).

Pesquisadores e teóricos acreditam que esse mecanismo tem sua função importante na infância, e que os adultos conseguem desenvolver formas mais saudáveis de lidar com suas questões emocionais. Contudo, se esse mecanismo persistir de forma agressiva e se perpetuar como protagonista na vida adulta, pode levar a estados de ansiedade, obsessões e fobias. Por isso, oportunizar caminhos para que as crianças e os adolescentes reconheçam seus sentimentos, receios e desejos pode ajudá-los a viver de maneira mais saudável – e isso só é possível onde eles se sentam seguros e acolhidos.

Nesse sentido, por exemplo, o material do programa LIV faz uso de personagens, pelúcias e narrativas diversificadas como recurso para que as crianças encontrem caminhos na projeção e possam ser acolhidas, especialmente em relação aquilo que têm mais dificuldade de reconhecer ou cuidar. Por exemplo, a criança pode falar que é o personagem quem está sentindo ciúmes, porque ainda considera difícil aceitar em si essa situação. Aos poucos, ela ganha vocabulário e capacidade de falar mais abertamente sobre isso.

Além disso, os materiais do LIV também são tratados como possíveis objetos transicionais, termo usado por Winnicott para se referir a uma fase de transição. Segundo seus estudos, no início de sua vida o bebê não consegue se distinguir do adulto, especialmente da figura materna, acreditando, por exemplo, que o corpo dela é uma extensão do seu próprio corpo. A percepção da separação e os primeiros momentos de ausência da mãe ou dessa figura materna encontram auxílio no que ele nomeou como “objeto transicional”, que seriam objetos que transitam no espaço entre o real e o imaginário (como bonecos, pelúcias, chupetas etc.), e que dão mais segurança e conforto para essa ruptura. Por isso, os personagens do LIV foram criados também com essa função de mediar os sentimentos e as conversas entre crianças, escola e famílias.

O papel da família no desenvolvimento da criança

A relação das crianças com os adultos ao redor foi aprofundada por Winnicott em sua teoria do Desenvolvimento Emocional Primitivo, na qual ele defende que a figura do bebê tem seus próprios conhecimentos, mas ainda é de grande fragilidade física e psíquica, necessitando do cuidado de um adulto para desenvolver-se plenamente. E foi nesse contexto que ele escreveu a famosa frase: “Não existe essa coisa chamada bebê”. Significa, para ele, que o adulto é fundamental para interpretar suas necessidades e ajudá-lo na sua adaptação ao mundo.

Nesse sentido, os primeiros e principais adultos na vida do bebê são, geralmente, seus familiares. Por isso, a psicanálise e, posteriormente, a educação, passaram a considerar as famílias fundamentais no desenvolvimento humano. Não à toa as escolas apontam que o envolvimento de pais, mães e responsáveis nas atividades escolares faz toda a diferença no processo educacional. Vale lembrar que, embora nossa sociedade ainda deposite a responsabilidade do desenvolvimento social e emocional nas famílias, “ninguém nasce sendo pai ou mãe”, conforme defende o psicanalista brasileiro Christian Dunker. Para ele, o processo de parentalidade requer ajuda e parceria da escola, da comunidade e do Estado, em todas as suas esferas. Pensando nisso, o LIV criou instrumentos que podem ser usados para fortalecer os laços entre família, escola e alunos, dando suporte para que os familiares tenham mais disposição para aprender com seus filhos. Entre as estratégias utilizadas pelo programa em parceria com as escolas estão: palestras com profissionais do LIV, rodas de conversa entre famílias, portal virtual com conteúdo educativo direcionado para pais e responsáveis, material físico com propostas de jogos e atividades para praticar em casa, e um caderno exclusivo com reflexões sobre a educação de adolescentes no mundo de hoje, escrito pela socióloga brasileira Lourdes Atiè.

O papel da criatividade

Em seus estudos, Winnicott também destacou outro fator fundamental no desenvolvimento intelectual e emocional: a criatividade. Em seu célebre livro “O Brincar e a Realidade”, ele afirma que “é através da percepção criativa, mais do que qualquer outra coisa, que o indivíduo sente que a vida é digna de ser vivida. Em contraste, existe um relacionamento de submissão com a realidade externa, onde o mundo em todos os seus pormenores é reconhecido apenas como algo a que ajustar-se ou a exigir adaptação”. Por essa razão, a criatividade precisa de espaço para se desenvolver. Escolas extremamente disciplinadoras e/ou com ensino pouco flexível, cuja única expectativa é que os alunos reproduzam o conteúdo ensinado, têm menor capacidade de desenvolver a criatividade. Sabendo desses desafios, o LIV traz a criatividade como uma habilidade a ser desenvolvida e aprimorada desde a Educação Infantil até o Ensino Médio, no conteúdo e na estrutura de diversas aulas que incentivam professores e alunos a procurar novos desfechos para o conhecimento adquirido. Entendemos por criatividade a capacidade de considerar ideias novas sem julgamento ou medo de errar, passando pela possibilidade de conexão com diferentes áreas do conhecimento até a criação de soluções “fora da caixa” para os problemas reais.

Quer conhecer as teorias de outros pensadores que inspiram o trabalho do LIV? Confira:

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

20 + 6 =