O que fazer diante da tristeza de uma criança?

Todo mundo fica triste. E você consegue saber disso com facilidade porque você também já ficou triste em algum momento da vida. De acordo com o estudioso americano Paul Ekman, a tristeza é uma das emoções mais básicas do ser humano, junto com outras como a raiva, a alegria e o medo. Se é assim tão comum, então por que temos tanta dificuldade de aceitá-la, principalmente quando ela surge em uma criança?

Para falar mais sobre esse assunto, convidamos a psicóloga e consultora do Laboratório Inteligência de Vida, Márcia Frederico, que explicou sobre as origens da tristeza nos seres humanos, as formas como ela se manifesta em adultos e crianças, a maneira como os responsáveis podem ajudar uma criança que está triste e também como distinguir a tristeza de um quadro de depressão. Confira a seguir:

De onde vem essa tal de tristeza?

De acordo com Márcia Frederico, a tristeza tem inúmeras causas, mas a emoção surge, essencialmente, de uma sensação de falta ou de ausência. “Ela é desencadeada por conta da percepção de que alguma coisa nos falta”, explica a psicóloga. “Pode ser a falta, por exemplo, de uma pessoa que gostaríamos de ter por perto, mas que não podemos ter por algum motivo, ou de um objeto no qual se depositava afeto e que foi perdido ou quebrado, ou até uma tristeza causada pela saudade do passado, que chamamos de nostalgia. Essas formas de ausência desencadeiam a tristeza e uma sensação de impotência, de que a gente não vai poder recuperar o que perdeu ou não vai poder ter nunca na vida”.

A tristeza é igual em adultos e crianças?

Antes de iniciar esse tópico, vale lembrar o que dissemos no começo: todo mundo fica triste, independentemente da idade. Contudo, explica Márcia, na criança a sensação da tristeza se dá como uma resposta mais imediata a algum fato recente. “Às vezes, é uma sensação direta causada porque um colega de escola não está mais brincando junto; por querer os pais por perto na hora deles irem trabalhar; querer estar em outro lugar; ou quando um brinquedo se quebra, uma bola se perde, um bichinho de estimação não está por perto. Enfim, a criança costuma reagir muito imediatamente a esses fatores”.

Já para o adulto, explica a psicóloga, a noção de tempo é outra e a tristeza pode se dar pelo repertório de sensações acumuladas ao longo da vida. “No adulto, a tristeza pode ser mais presente e duradoura por trazer memórias passadas, e pode ser causada por um fato que traz uma lembrança de um tempo que já passou. Por isso, quando se fala de tristeza nessa faixa etária, a gente fala muito da nostalgia. Em alguns casos, quanto mais velha a pessoa fica, mais se sobressai essa tristeza nostálgica de um tempo que não volta mais. Ela traz uma lembrança mais histórica desse tempo decorrido”. É lógico, explica Márcia, que a criança também pode sentir a nostalgia, principalmente quando ela vai ganhando mais idade e sente saudade do que se lembra, mas nos mais velhos a questão da temporalidade entra com mais força. “Além disso, o adulto tem mais noção e dados de realidade de que aquilo que passou não é mais recuperável, de que não dá mais para voltar no tempo, ou de que não há tempo no futuro no qual a perda seja reparável. O adulto tem essa noção mais clara de tempo, seja do passado, presente ou futuro. Para ele, a tristeza entra com outra densidade, profundidade e carga emocional”.

Quais sinais a criança dá quando está triste?

De acordo com a psicóloga do LIV, um dos primeiros passos para ajudar uma criança a compreender melhor seus sentimentos é saber reconhecê-los em si e nos outros. Isso porque a tristeza não necessariamente se manifesta com lágrimas. “Muitas vezes, a criança reage a situações de frustração e tristeza de forma irritada, raivosa ou chateada. Para quem vê de fora, pode parecer que ela está com raiva”, explica. Acontece que nessa hora, se o adulto não identificar que aquilo pode ser, no fundo, uma tristeza, ele pode até agir de maneira punitiva ou com respostas agressivas. “Quando o adulto percebe que não é bem a raiva que está ali, já é um grande avanço. Pode ser que, por traz da reação raivosa da criança, haja uma tristeza e uma dor que ela tem por não se sentir capaz de recuperar alguma coisa. E isso traz frustração, decepção e quebra de expectativa”.

E como ajudar a criança quando ela está triste?

Quando o adulto percebe a tristeza na criança, a situação pode caminhar para várias direções. É comum, por exemplo, que pais, mães e responsáveis tentem compensar essa percepção de alguma maneira. “É muito difícil para nós, principalmente pais e mães, ver um filho sofrendo. A tristeza aciona uma vontade de fazer oposição a isso, de fazer com que a criança saia desse estado”, afirma Márcia. E nesse sentido surgem as famosas frases: “Não é nada! Não fica assim! Não chora! Deixa para lá, isso vai passar!”.

Porém, elas não são, nem de longe, boas palavras para dizer nesses momentos. “Quando o adulto usa esse tipo de expressão, ele está desqualificando o sentimento da criança, dizendo que ela não deve sentir o que está sentindo, ou que ela não deveria, que aquilo não é importante”, explica. “Também tem aqueles que tentam tapar a ausência com presentes, ou que buscam um papel de ‘bobo da corte’, tentando fazer gracinhas ou piadinhas para fazer a criança rir, buscando trazer uma alegria artificial para o momento. O adulto reage dessa forma porque ele não suporta ver o sentimento de sofrimento na sua criança”.

Nesse sentido, explica a especialista, é importante que o adulto também aguente e saiba suportar o momento, para que dê tranquilidade e confiança à criança. “Se ele demonstrar que ele está ali junto da criança, pode ser que a tristeza passe mais rápido do que se ele ficar tentando alegrá-la a qualquer custo”. Mais do que tudo, orienta a psicóloga, o responsável deve entrar nessa situação para oferecer um lugar de conforto, de acolhimento, de contenção e para mostrar à criança que ele, como adulto, pode abraçar, cuidar, dar um contorno para essa tristeza, oferecer uma fala de acolhimento e verbalizar o que ele percebe na criança. Frases como: “Eu estou vendo o quanto você ficou triste com isso que aconteceu, se eu estivesse no seu lugar talvez me sentisse da mesma forma”, ou “Eu imagino como você está se sentindo, eu também já senti alguma coisa parecida” tendem a aproximar mais o adulto da criança nos momentos difíceis. “No primeiro momento, o responsável tem que oferecer esse suporte emocional à criança, justamente para ela suportar o momento de dor e de tristeza, para só depois pensar em outras ações que possam ajudá-la a superar a questão”, completa a psicóloga.

Importante lembrar: depressão não é tristeza!

Quando se fala em tristeza, o assunto depressão também costuma vir à tona e, como estamos no chamado mês Setembro Amarelo, que trata da conscientização dos problemas relacionados à depressão, achamos importante concluir esse texto falando um pouco sobre esse tão relevante.

De acordo com a psicóloga Márcia Frederico, muitas pessoas confundem tristeza com depressão, mas elas não são a mesma coisa. “A tristeza, como falamos, é desencadeada por uma perda ou uma ausência. Já a depressão entra como um estado de espírito de angústia mais profunda. É um vazio, uma falta de sentido na vida e no cotidiano. Nada é capaz de alegrar ou motivar, e até mesmo o que antes fazia bem não proporciona mais prazer e brilho nos olhos”.

No caso da depressão infantil, ela explica, os quadros da doença são identificados quando esse estado se prolonga e a criança começa a dar sinais como perda ou aumento do apetite, alterações no sono, grande vontade de se isolar, de não pertencer a grupos ou não querer brincar. “Coisas que ela gostava antes passam a não ter mais interesse. Às vezes, há uma falta de ânimo para ir à escola ou a lugares que naturalmente ela teria vontade de ir. Esse estado prolongado de apatia, de falta de interesse, é o que a gente vai identificando como um quadro de depressão”.

Ainda segundo a especialista, a depressão na infância se dá por muitos aspectos e não há uma relação de causalidade direta e única. “Não existe uma causa e consequência diretas que levem uma criança a ter depressão. Na visão da psicologia e da psiquiatria hoje, a gente está sempre avaliando múltiplos fatores. Ela pode ter desenvolvido esse quadro por viver em um ambiente hostil, desprovido de alimento emocional. Ou viver muito sozinha e isolada de pessoas que a estimulem. Em outros casos, ela pode ter na família alguém com depressão, algo que reflete na criança também, no sentido de criar a sensação de falta de perspectiva, de futuro, de visão de sair daquele buraco negro”.

Quando os sintomas da depressão são identificados, além de proceder com o acolhimento e a conversa, o adulto responsável pela criança precisa identificar esses sintomas e procurar, inicialmente, por um psicólogo profissional e, caso seja recomendado, buscar um psiquiatra para avaliar se existe alguma deficiência de composição química que precise ser restaurada com medicação. A especialista do LIV também explica que a ajuda psicológica precisa ser para toda a família, não apenas focada na criança, para que o grupo possa estar preparado e fortalecido para lidar com essa situação. “A depressão não atinge só o deprimido, ela atinge quem está em volta”.

Se você deseja se saber mais sobre depressão e saúde mental a infância, recomendamos a leitura dos artigos abaixo:

·         Falando sobre sentimentos e depressão na escola

·         Saúde mental na escola: cenário, desafio e caminhos possíveis

·         Saúde mental na escola: a importância de se aprofundar sobre o tema

[Palestra gratuita] Um bate-papo com Viviane Mosé sobre inteligência socioemocional

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