Habilidades socioemocionais: como elas podem auxiliar na prevenção do bullying

Se você está lendo esse texto, é provável que saiba o que é bullying. A discussão sobre esse tema é recorrente entre escolas e famílias e também é alvo de constante debate nos meios de comunicação. Contudo, como todo problema complexo, o bullying não é combatido de um dia para o outro por meio de uma solução pronta. Para reduzir e prevenir seus danos, é preciso agir de forma sistemática, buscando entender o que está por trás de cada caso.

Em palestra durante o evento LIV Talks, realizado pelo Laboratório Inteligência de Vida, a psicóloga Márcia Frederico explicou que, embora as principais “causas” de bullying apontadas nas pesquisas estejam relacionadas a questões como peso, inteligência, aparência e classe social dos alunos, o problema não ocorre necessariamente por causa dessas características, mas sim pelo fato de quem pratica não aceitar as fragilidades e as diferenças do outro. “Considerando que nossa sociedade tem uma relação de rejeitar as fragilidades, isso faz sentido. A gente tem medo de ser diferente. O outro incomoda. O bullying diz muito sobre a nossa relação com a fragilidade”, comentou em sua palestra.

Por isso, explicou a especialista, mais do que promover campanhas pontuais contra o bullying, as escolas precisam atentar para como os alunos estão desenvolvendo habilidades socioemocionais que os permitiram conviver em grupo, desenvolvendo empatia, respeito ao diferente e capacidade de escutar os outros. Em sua fala, Márcia destacou três aspectos essenciais para as escolas considerarem ao tratar do problema no ambiente escolar. Confira um resumo a seguir:

1. Quem pratica, quem sofre e quem assiste

De acordo com Márcia Frederico, o primeiro ponto para pensar sobre o bullying é considerar que não existem apenas dois atores envolvidos na situação, ou seja, alguém que pratica essa violência e sua vítima. O espectador é também parte do problema, mas normalmente é desconsiderado. “De acordo com uma pesquisa de 2001, 88% dos episódios de bullying acontecem em frente aos espectadores. Porém, eles interferem em apenas 19% dos casos”. Por isso, explicou a especialista em sua palestra, a pessoa que pratica o bullying enxerga nos espectadores uma oportunidade de ação. “Aqui não estou me referindo apenas a alunos que assistem. Outra pesquisa feita nos Estados Unidos revelou que 71% dos estudantes afirmaram que professores e adultos em sala de aula também presenciavam, mas ignoravam situações de bullying”.

2. Agressor X vítima

O segundo ponto relacionado ao bullying destacado na palestra é a tendência equivocada de rotular quem pratica o bullying de agressor, como se existisse na criança algo imutável ou até uma natureza má. “Todos nós somos bons e maus. Essa concepção de que existe um agressor ‘por natureza’ não faz o menor sentido dentro de educação, principalmente, com crianças”, ponderou a especialista. Em muitos casos, quem comete bullying são aqueles que vêm de famílias com pais ausentes, que recebem menos afeto, que têm noção de disciplina inconsistente e ausência de limites, ou que passaram por punições físicas ao longo da vida. “Se rotulamos, colocamos as crianças em lugares fixos e não permitimos que elas mudem de posição”, defendeu Márcia.

Uma oportunidade de ação

O terceiro ponto importante, explicou a psicóloga, é saber que existe uma possibilidade de prevenir o bullying, embora não seja possível extingui-lo. “É impossível acabar com o bullying, mas é possível diminuir e prevenir o problema”. Dar espaço de escuta e fala aos alunos, falar abertamente sobre o tema e trabalhar com os espectadores para mostrar que o bullying não é um ato heroico, mas sim uma covardia, são alguns caminhos apontados pela especialista. No caso dos educadores, é importante também mostrar que se importam com as crianças, tratando caso a caso sem massificar os padrões de comportamento, pois isso ajuda a romper rótulos, criar senso de comunidade e levar em consideração, seriamente, os seus questionamentos.

Para tomar nota

  • O que é bullying

Segundo  o sociólogo brasileiro Orson Camargo, o bullying é um termo da língua inglesa (bully = “valentão”) que se refere a todas as formas de atitudes agressivas, verbais ou físicas, intencionais e repetitivas, que ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos, causando dor e angústia, com o objetivo de intimidar ou agredir outra pessoa sem ter a possibilidade ou capacidade de se defender, sendo realizadas dentro de uma relação desigual de forças ou poder.

  • O que não é bullying:

Seguindo o mesmo raciocínio da definição acima, casos de discussões, desentendimentos e brigas pontuais não são consideradas bullying. Embora seja necessário a intervenção também nesses casos, é importante saber diferenciar os problemas.




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