Separação: a importância da família não antecipar os sentimentos

A questão do divórcio entre casais é um tema muito mais presente na nossa cultura hoje do que era no passado: em 1984, as separações representavam cerca de 10% do universo de casamentos. Com a aplicação mais abrangente da Lei do Divórcio, instituída no Brasil há mais de 40 anos, essa correlação saltou para 31,4% em 2016, ano em que os últimos dados sobre o tema foram divulgados.  

Desses casos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 46% envolvem famílias com filhos menores de 18 anos de idade. E quando essas situações acontecem, é inevitável não pensar sobre como as crianças ou os adolescentes envolvidos podem se sentir diante dos fatos. “Existe em nossa cultura uma expectativa de que a família fique junta para sempre. Nos filmes e livros, as famílias são sempre retratadas unidas, então as crianças acabam criando essa expectativa, achando que existe apenas um cenário ‘bom’, que seria a família estar junta, e um cenário ‘ruim’, com a família separada, quando na verdade pode ser pior viver em um lar no qual as pessoas não estão satisfeitas ou ficam brigando, sem conseguir se comunicar”, afirma Renata Ishida, psicóloga e consultora pedagógica do programa Laboratório Inteligência de Vida (LIV). 

Por conta dessa visão cultural, explica Ishida, muitas vezes as famílias esperam de antemão que os filhos sofram com a separação, sem deixá-los se expressar verdadeiramente. “Quando o adulto fica esperando uma determinada reação, a criança tende a responder de acordo om essa expectativa. Quando, após a notícia da separação, abrirmos espaço para que a criança (ou adolescente) se manifeste, melhor será o acolhimento e a escuta”, explica.

Ainda de acordo com a psicóloga, na hora de comunicar a separação é mais indicado optar pela objetividade, sem dar aos filhos explicações para além do que eles esperam receber naquele momento, deixando que façam suas perguntas primeiro sem dar respostas antecipadas. “Muitas vezes o adulto quer antecipar algumas questões e acaba se enrolando na explicação ou criando mais questões do que aquilo poderia gerar de fato”.

Os sentimentos que surgem diante das mudanças

Assim como qualquer mudança, uma separação familiar pode estimular múltiplos sentimentos, e cada criança ou adolescente vai reagir à sua maneira – exatamente por isso é importante não antecipar nada. “A criança pode externalizar diferentes sentimentos. Ela pode, sim, ficar triste, ter raiva, se sentir culpada, abandonada ou até achar que ela é responsável pela separação, mas isso vai variar em cada situação”, ressalta Ishida. 

Nas crianças pequenas, que apresentam mais dificuldade de verbalizar os sentimentos, as reações, em sua grande maioria, podem ser percebidas através de um sintoma denominado regressão. “Em alguns casos, a criança volta a fazer xixi na roupa ou querer voltar a mamar e chupar chupeta. Já nas crianças que estão em idade escolar, podem ocorrer somatizações, como uma dor de barriga ou cabeça (implicando, por exemplo, num pedido para que os pais as busquem na escola) ou alterações de humor, sono e apetite”, explica a psicóloga. “As reações dos adolescentes, quando ainda estão elaborando todo o processo, podem ser diversas também, como oscilação de humor, agressividade e isolamento. Sua capacidade de expressão verbal tende a ser maior em relação às crianças, por isso vale a pena investir um pouco mais nos espaços de conversa. Caso eles recusem, deixe sempre a porta aberta para que possam procurar (e encontrar) oportunidades de diálogo”.

Mas sabemos que, diante de uma separação, não são só os sentimentos dos filhos que estão em jogo, quem se separa também pode apresentar fragilidades. Segundo a psicóloga, não é raro encontrar situações em que a criança acaba ouvindo as insatisfações do pai ou da mãe em relação ao ex-cônjuge. É preciso lembrar que a criança ou adolescente não deve ser pressionado a tomar partido da relação, afinal “mesmo que uma separação conjugal tenha acontecido, existe ainda a relação parental”.

Estabelecendo a nova rotina e fortalecendo os laços

O que pode deixar a criança mais ansiosa e com medo é o desconhecimento sobre a nova forma de vida que irá se estabelecer. Não saber como será sua rotina, com quem vai morar, quantas vezes poderá ver a mãe ou o pai, quantas vezes poderá falar ao telefone, se terá que mudar de escola: todas essas dúvidas abrem espaço para que fantasias sejam geradas, nas quais cenários de abandono e sofrimento podem aparecer. 

Por mais que as novas configurações ainda não estejam completamente estabelecidas (até porque a novidade não é só para as crianças, mas para toda a família), é extremamente importante explicar como a vida seguirá, deixando claro os novos acordos, horários e abrindo espaço para sugestões, questionamentos e algumas mudanças, caso necessário. “A rotina vai mudar, obviamente, mas o amor não muda. A segurança se estabelecerá novamente quando a criança perceber que a presença dos pais está mantida e o vínculo preservado”, conclui a psicóloga.

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