Mês dos Professores: um olhar sobre a docência

Neste Mês dos Professores, quem melhor para falar sobre a profissão do que uma professora, não é mesmo? Por isso, convidamos a docente e especialista em educação Lourdes Atiè para falar sobre como ela vê essa carreira nos dias de hoje. Em seu depoimento ela falou sobre os desafios da carreira, as possibilidades de melhora e as esperanças para o futuro. 

Confira a seguir os principais trechos do relato feito pela educadora:

As dificuldades da docência

“Com meu trabalho na educação, eu tenho o privilégio de andar por todo o Brasil e vejo que os professores estão absolutamente esgotados. Este ano, eu vi um nível de esgotamento que me assustei. Em agosto, por exemplo, eu estive quase todos os dias em uma cidade diferente e sentia como se não tivesse havido recesso escolar em julho, tamanho o cansaço relatado pelos professores. É como na música do Chico Buarque, que diz ‘Joga pedra na Geni’. Esse é o professor. Tudo que acontece de ruim na sociedade cai diretamente em um lugar chamado escola e, claro, em cima da pessoa principal desse espaço que é o professor.

Contudo, embora seja difícil, eu não tenho uma visão negativa de que estamos indo ladeira abaixo. O futuro será o que a gente construir hoje. E eu acredito na potência da profissão. Nas minhas formações falamos muito sobre isso e, quando os professores descobrem essa potência, eles até se assustam. Minha principal defesa é que a carreira docente possa caminhar para uma melhora. É isso que ando falando pelo Brasil: o professor tem que se assumir! 

A gente é uma categoria que reclama muito. Temos que mudar isso e nos assumir como uma categoria profissional absolutamente relevante para a sociedade, porque todo mundo passou pela mão de um professor. A nossa importância é muito grande, mas as coisas ruins ganham uma dimensão tão grande que perdemos a perspectiva da importância do papel que temos.

As paixões da vida em sala de aula

Acredito que o professor seja movido por duas paixões: tem uma paixão pelo ato de ensinar e uma paixão pelo conhecimento, que é a matéria prima do professor. Se ele optar por ser apenas um reprodutor de conteúdo, ele vai ficar no esgotamento, porque a escola brasileira tem características muito peculiares. Por exemplo, ela é muito conteudista e a BNCC [Base Nacional Comum Curricular] reforça mais isso. É muito conteúdo e pouca aprendizagem por razões óbvias: a neurociência já ensinou para a gente que informação demais é igual aprendizagem de menos. 

Além disso, a educação é muito acelerada. Como tem muito conteúdo, os professores se antecipam e as crianças não têm tempo de aprender cada uma no seu ritmo. Elas começam também a ser executoras das tarefas. Se analisarmos a trajetória de um aluno brasileiro, vemos que ele entra com muita curiosidade e criatividade na Educação Infantil e sai no Ensino Médio com zero de curiosidade e no piloto automático, pensando que tem apenas que responder para passar de ano. A gente está vivendo um momento muito difícil no Brasil. Por isso, agora é hora do professor tomar consciência do seu papel, refletir sobre esse lugar e se colocar nesse protagonismo. 

Gestão do tempo e abertura à parceria

Outro aspecto importante para essa mudança é a questão do tempo. Na escola, a gente não sabe separar o tempo relevante do tempo irrelevante. A gente faz muita coisa, mas o que realmente faz sentido? O professor está atolado sim, mas tem um caminhão de coisas que ele faz e que não deveria ou não precisaria fazer. É preciso ter disciplina intelectual para saber que não vou fazer tudo o que desejo. A gente, professor, sofre um pouco desse tipo de onipotência. Gostamos de fazer tudo e achamos que ninguém faz melhor do que a gente. Daí o professor vira porteiro, enfermeiro, cozinheiro, policial, ele é tudo, porque faz tudo. Porém, ele não tinha que fazer isso. 

Poderíamos pedir mais ajuda, discutir na escola quem não está fazendo sua parte e também inserir as famílias, por que não? Em qualquer parte do mundo você vê projetos lindos de família colaborando na escola. No Brasil, a família ainda é vista como consumidora de um serviço. Assim, só as convidamos para informar o desempenho do filho ou para uma festinha ou apresentação de alunos. A gente precisa aprender a trabalhar mais com a cidade, com a comunidade e com as famílias. Senão a gente vai fazer tudo. E quem faz tudo, não faz nada bem.

Compartilhando o protagonismo

Além de integrar mais a comunidade e as famílias, temos também que fazer formações mais reflexivas para que o professor seja protagonista do seu processo de aprendizagem, para que entenda o que está aprendendo e possa fazer a metacognição. Não adianta falar de diferentes teóricos se não possibilitamos uma transposição didática para a prática da sala de aula. E não basta eu ser uma professora bacana se a experiência ficar trancada na escola. O século 21 é o século da conexão, por isso eu defendo que os professores compartilhem e troquem publicamente suas experiências. Não para ganhar um prêmio, mas para articular diferentes escolas e para o fortalecimento da categoria, pois a aprendizagem se dá com muito estudo e no coletivo. 

A gente sempre pensa em receitas de sucesso, mas o intelectual do conhecimento não é quem está dentro da academia ou que tem doutorado e mestrado. O profissional do conhecimento é o professor que está no dia a dia da escola, mas ele ainda não assumiu isso. Se ele tomar essa consciência, a gente faz uma revolução”. 

Lourdes Atiè tem mais de três décadas de atuação profissional como educadora e atualmente contribui com o Laboratório Inteligência de Vida para a formação de professores e a criação de materiais de apoio para escolas e famílias.

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