Dia do Diretor: “Mesmo um líder na educação é, na essência, um professor”

O Dia do Diretor se comemora no Brasil em 12 de novembro e, para marcar a data, convidamos para uma entrevista Amaral Cunha, diretor da Escola Eleva, em Botafogo, no Rio de Janeiro, que falou sobre os desafios da liderança em uma das maiores e mais renomadas escolas do país. “Ser um bom líder em educação é, primeiro, nunca esquecer que mesmo um líder na educação é, na essência, um professor. Por isso eu acredito em uma liderança que não perde o contato com a sala de aula”.

Médico de formação, Amaral conta que a educação sempre esteve presente em sua vida e não tardou muito para trocar o consultório pelas salas de aula. “Comecei dando aula na Cultura Inglesa, onde depois me tornei coordenador, e a educação foi crescendo a partir daí”. Para abraçar de vez a profissão, ele saiu da medicina e expandiu sua formação como docente: fez mestrado nos Estados Unidos, em seguida cursos de especialização de professores, como o DELTA e o CELTA, certificações da Universidade Cambridge voltadas para o ensino da língua inglesa, além de uma formação na International House, de Londres, na Inglaterra.

Com o tempo, especializou-se em alunos com dificuldades de aprendizagem e coordenou um setor dedicado ao tema na Escola Americana de São Paulo. Fez ainda especialização para aulas de Biologia e tornou-se coordenador nessa área pouco antes de, em 2016, iniciar sua atuação na Escola Eleva. “Cheguei com o desafio de abrir a unidade Botafogo, já com a ideia de criar uma escola com um modelo de ensino inovador”.

Ao blog do Laboratório Inteligência de Vida (LIV), Amaral contou mais sobre sua carreira, sobre os desafios da gestão e sobre como ele trabalha os aspectos socioemocionais em sua vida pessoal e profissional. Leia a entrevista completa a seguir:

  • Na sua opinião, o que significa ser um bom diretor escolar?

Ser um bom líder em educação é, primeiro, nunca esquecer que mesmo um líder na educação é, na essência, um professor. Por isso eu acredito em uma liderança que não perde o contato com a sala de aula, para entender o dia a dia do professor e entender as necessidades do aluno, acho que isso é fundamental para se ter uma liderança na área de educação.

O segundo ponto que acho essencial é estar sempre engajado em uma aprendizagem contínua. Eu digo que escola é um ser vivo e, a escola sendo um ser vivo, o tempo todo você precisa estar entendendo esse movimento da educação, ou seja, estar sempre em contato com escolas de referência, não tendo medo de quebrar paradigmas e de trazer novas perspectivas.

A terceira questão que para mim é importante é entender que a escola é uma comunidade e, nesse entendimento, saber que o diretor não consegue educar sozinho, pois a verdadeira educação tem que acontecer entre escola, família e aluno. Ter um senso claro de comunidade, entender o poder dessa comunidade, o poder de um trabalho conjunto, e dentro disso ouvir, ouvir bastante, não só as sugestões, mas também ter um alicerce muito claro de onde se quer chegar, para que as sugestões não se tornem imposições sejam dos pais ou da equipe. Ter um objetivo claro, não dirigir sozinho, ouvir, mas saber dizer sim e saber dizer não.

  • Conte mais sobre sua atuação na Escola Eleva: quantos alunos, funcionários e professores fazem parte da sua rotina diária? O que significa, do ponto de vista socioemocional, liderar essa grande comunidade?

Temos aproximadamente 1.400 alunos, isso remete a muito mais de 1.000 responsáveis e em torno de 300 colaboradores entre professores, assistentes e equipe de apoio pedagógico. É uma comunidade ampla. As pessoas me perguntam quais os maiores desafios de estar na liderança de uma escola e eu digo que o maior desafio é lidar com gente. Você tem que saber ouvir. Um ouvido atento é condição sine qua non para conseguir manter essa comunidade. A segunda coisa é saber se colocar no papel do outro, não apenas ouvir, mas ouvir se colocando no lugar do outro, entender que nada se faz sozinho, trabalhar em equipe, saber ser um mediador de conflitos. É muito interessante porque são basicamente as características trabalhadas no LIV [especialmente os hábitos trabalhados no material para alunos do Ensino Fundamental]. O ouvido atento, a troca de chapéu, o trabalho em equipe, a mediação. São competências essenciais para um líder, porque o diretor trabalha com mediação de conflitos o dia inteiro: conflitos da equipe, conflitos com os alunos, conflitos com os pais.

  • Ainda falando sobre o socioemocional, a Escola Eleva tem esse tópico como um de seus pilares no projeto pedagógico. Sendo assim, como esse pilar impacta na sua atuação como gestor?

Eu sempre acreditei muito no socioemocional. Na época em que fui professor e coordenador, eu sempre acreditei nisso e sempre tive um excelente relacionamento com meus alunos. Eu invisto muito e acho que todo professor novo que chega para mim e diz: “Amaral, qual a dica que você dá para quem está começando a carreira?”. Eu digo: conquiste seus alunos. Quando você conquista os alunos você consegue tudo. A mesma coisa para um líder: conquiste sua equipe, ganhe a confiança da sua equipe. Sempre acreditei no poder do socioemocional, mas com a Escola Eleva isso veio de uma forma estruturada, principalmente com os alunos. Eu nunca tinha trabalhado em uma instituição em que o socioemocional estivesse estruturado dentro de um currículo e foi muito bom ver isso acontecer.

Dica: Para saber mais sobre o currículo e o pilar socioemocional da Escola Eleva, clique aqui e assista a uma palestra sobre o tema feita no Congresso Socioemocional LIV.

  • Esse conselho também vale para professores que já estão na gestão há mais tempo?

Eu acho que, primeiro, o professor precisa entender que ele é um eterno aprendiz. Um professor que diz que não tem o que aprender, para mim, não é uma pessoa que tem que continuar nessa profissão. Nessa função de eterno aprendiz, ele tem que ser curioso, chegar próximo dos alunos. Mesmo um professor antigo tem que entender que, a cada ano, ele é único para um grupo de alunos. Ele não pode pegar a experiencia que teve e achar que está valendo para todos, porque ele é único a cada ano. Nesse sentido, chegar próximo, entender que o aluno não é uma página em branco. A gente às vezes tem essa tendência de pensar que o aluno é uma página em branco e que eu vou escrever naquela página. Ele vem com bagagem, ele vem com sentimentos positivos e negativos, vem com experiências anteriores. Tem que levar tudo isso em consideração no aprendizado.

Eu gosto muito de entender o clima da turma, sempre faço uma dinâmica ou atividade de transição entre uma aula e outra para o aluno entrar no clima, eu acredito muito no mindfulness, no relaxamento e em ouvir. Eu nunca vou ser o professor que chega em uma aula e diz “abre o caderno, vamos começar”. Tem o momento de conversar como foi o fim de semana, como todo mundo está se sentindo. Tenho várias técnicas para saber como os alunos estão e acho que isso vale também como diretor: começar uma reunião dando tempo para as pessoas se colocarem, trocarem ideias, o que tem de positivo, de negativo. Funciona tanto para o professor novo quanto para o antigo.

  • Como você cuida dos seus próprios sentimentos ao longo do ano, incluindo as épocas mais conturbadas de fim de ano letivo?

Voltando para o Amaral Cunha, pessoa física, eu acho que a construção da Escola Eleva foi o nível máximo de estresse que tive, acho que foram dois anos de uma dedicação total e essa dedicação deixou o aspecto pessoal de lado. Mas toda e qualquer empresa tem que entender que cuidar do bem-estar do funcionário é cuidar do bem-estar da instituição. Eu confesso que nos dois primeiros anos eu não dediquei o tempo necessário para mim e, neste ano, eu coloquei limites, eu tento respirar mais, por exemplo, para uma reunião complicada eu me fecho na sala e faço um relaxamento. Outra coisa que eu tenho trabalhado muito é entender o que é meu uniforme e o que é o Amaral, lembrando que em alguns momentos a pessoa está falando com meu uniforme. É saber separar as duas coisas, o que não é fácil, mas é necessário.

  • E nas férias, consegue relaxar?

Um mês não [risos]. Eu consigo tirar até duas semanas. Nos primeiros três ou quatro dias é um momento de descomprimir e depois eu consigo entrar no ritmo. Ainda acho que é necessário acessar menos os líderes em momentos de lazer e acho que é um trabalho que quero fazer com meus líderes na escola. Mesmo assim, melhorou bastante do que foi o primeiro ano para o que é agora.

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