Fim de ano letivo: as emoções de terminar um ciclo escolar

Quem atua na área da educação sabe que todo fim de ano letivo muitas emoções afloram nas turmas, especialmente naquelas que estão em fase de transição para uma nova etapa do ciclo escolar. Seja na mudança da Educação Infantil para o Ensino Fundamental ou deste para o Ensino Médio, nenhum estudante está a salvo das ansiedades causadas pelo vislumbre de uma nova etapa.

Como essa época do ano já está se aproximando, convidamos a psicóloga e consultora do Laboratório Inteligência de Vida (LIV), Márcia Frederico, para falar sobre as emoções e sentimentos envolvidos nessas etapas de mudança tanto para os alunos quanto para os educadores e as famílias. Leia mais a seguir:

  1. É comum os estudantes em final de ciclo escolar ficarem mais emotivos? Por quê?

Sim, é bastante comum. Todo final de ciclo é um momento que marca uma mudança, e as mudanças e o novo às vezes têm uma ambiguidade de medo e desejo. Tem o desejo de crescer, de mudar, de alcançar outro patamar, mas existe também o medo do desconhecido, de perder as pessoas que te acompanharam naquele período. Geralmente, quando tem uma mudança de ciclo significativa nas etapas escolares, muitas vezes existe uma expectativa dos alunos em relação a quem vai acompanhá-los na outra turma e surgem perguntas como: “Será que vou ficar junto com meus amigos de antes?”; “Como serão os professores e professoras?”; Quais novas responsabilidades eu terei?”; “O que vai mudar, afinal?”.

Além disso, tem a convivência com alunos mais velhos, principalmente quando a mudança acontece da Educação Infantil para o Ensino Fundamental, ou das etapas iniciais para as etapas finais do Ensino Fundamental ou, por fim, para o Ensino Médio. 

Esse último acaba por ser o período mais tenso, pois envolve uma mudança mais radical na rotina do jovem. É o fim de uma era estudantil, onde ele vai deixar de ser aluno de uma escola e vai passar para uma outra fase, que marca também o início da vida adulta. Isso pode gerar uma sensação de solidão, porque ele não será mais acompanhado pelas pessoas com quem tinha laços afetivos, nem os próprios amigos da turma. Em geral vai cada um para um lado e, às vezes, alguns conseguem seguir com seus amigos na entrada em uma universidade, mas nem sempre isso é garantia, por é preciso passar por uma etapa difícil de provas, vestibulares e ENEM [Exame Nacional do Ensino Médio], ou de decisões e escolhas que eles podem considerar que são para o resto da vida. 

  1. O que as escolas podem fazer para ajudá-los na fase de transição? 

Muitas vezes, as escolas já ajudam na transição ao terem um momento no ano dedicado a levar o aluno de uma etapa para conhecer o próximo segmento de ensino e dar as boas-vindas para quem está na transição. São ocasiões em que um aluno que vai sair da Educação Infantil, por exemplo, conhece os alunos do 1º ano e de outras séries iniciais do Ensino Fundamental. Nessas ocasiões, as turmas preparam tudo para mostrar aos colegas como é o dia-a-dia, os espaços, a rotina da escola. O mesmo acontece, de diferentes maneiras, nas demais etapas. A maioria das escolas que eu conheço já têm alguma atitude de apresentar o futuro ciclo para os alunos que estão vindo. Esse tipo de atitude ajuda a diminuir um pouco alguns mitos ou expectativas equivocadas que os alunos talvez pudessem ter nesse sentido. Também ajuda a tirar dúvidas, esclarecer, conhecer, olhar de perto e se imaginar naquele lugar daqui a pouco. É um exercício muito bom.

Por outro lado, como tudo na vida tem seu prós e contras, isso também pode trazer maior ansiedade. A criança começa a se perguntar se a mudança “é pra valer” e como será sua futura realidade. Também pode acontecer de fantasias que ela tinha em relação ao novo ambiente serem maiores na imaginação e, de repente, durante a visita ao novo ciclo ela perceba a realidade e não fique mais tão fascinada. Nesse caso, tem uma quebra de expectativa que pode ser para os dois lados. De todo modo, acredito que é importante ajudar nesse momento de transição com atividades de visita e apresentação do novo ciclo, pois isso traz dados de realidade e ajuda a enfrentar por antecipação algumas situações escolares.

  1. Nesse sentido, festas de despedida e formaturas são importantes? Se sim, por quê?

As festas e formaturas são marcos simbólicos em todas as culturas, desde as mais primitivas todas têm esses marcos da entrada da adolescência, da entrada em um outro momento de vida, com a aquisição de novas competências por parte das crianças e dos adolescentes. Assim, a formatura e a festa simbolicamente colaboram para marcar um aplauso ao esforço que o estudante demonstrou para chegar naquele patamar. Geralmente, nessas festas e formaturas, a criança ou o adolescente é chamado nominalmente para receber seu diploma, onde ele tem tanto um momento coletivo, o qual vivencia com a turma que está passando por essa fase com ele, quanto um momento que é só dele, mais individual, de estar sendo reconhecido como alguém capaz e que galgou um degrau. Tudo isso tem sua importância de marcar subjetivamente que essa pessoa tem um caminho e conseguiu chegar a um patamar.

  1. Como as famílias podem ser inseridas nessa transição?

A família é muito importante nessa fase, mas tem que tomar cuidado com a diferença entre pressão e orientação. Quando a família faz pressão, ela cobra em excesso, muitas vezes com frases como: “Tem que passar de ano de qualquer jeito” ou “Só aceito nota dez e nada menos”. Essa pressão não pode ser confundida com a torcida positiva. Falo da torcida no sentido de dar orientação e suporte, de estar junto, apoiar nas dificuldades, ajudar a organizar o tempo e ajudar o estudante a ver como ele pode se concentrar mais nos estudos se necessário. Quando a família entra nesse espírito colaborativo, de alguém que está pensando como alcançar junto um determinado objetivo, é interessante. Porém, quando entra com cobrança e pressão, ela pode aumentar a ansiedade e, com isso, em vez do estudante conseguir se dedicar, vai ficar mais nervoso e achando que pode não conseguir. Muitas vezes, quando existe a pressão também existe, na fala inconsciente desse adulto, a sensação de que a criança ou adolescente não vai conseguir. Então, ele usa frases como: “Vamos ver se você consegue mesmo” ou “Olha lá, quero só ver se você sabe de verdade”. No fundo, ele está fazendo um questionamento dizendo: “Não sei se você é capaz”. Esse tipo de situação, no fundo, demonstra que o outro está sendo colocado em dúvida.

Há casos ainda em que a família busca, exageradamente, garantir tudo ao filho, de forma forçada e artificial, afirmando que “ele é o melhor, é capaz de tudo”. Quando o pai ou a mãe agem dessa forma, mesmo achando que estão oferecendo uma torcida positiva ou só querendo o melhor para seus filhos, pode haver uma ansiedade interna, pois eles podem acabar vendo apenas a chance de o filho ser o melhor em tudo, sem dar alternativas para demonstrar que o erro pode acontecer e que a queda e a falha podem estar no caminho de qualquer pessoa.

O equilíbrio, que devemos perseguir por mais difícil que seja alcançar, é necessário nesses casos. Isso significa demonstrar aos filhos que se há participação, acompanhando-o, procurando estar mais presente nas dificuldades e tentando entender o que está faltando para lidar com a escola. O adulto pode pensar junto e oferecer alternativas em caso de dificuldades.

  1. No que diz respeito aos docentes, sabemos que eles também são afetados nessas etapas de transição. Como elas podem ajudar no seu autoconhecimento e na preparação para o próximo ano?

O fim do ano escolar é um bom momento de reflexão, de percepção e feedback para o professor analisar como está construindo uma relação com seus alunos. Também é um bom momento para, se ele quiser, fazer mudanças de forma significativa. A cada ano que termina é um ciclo que se fecha, é um momento que a turma, mesmo se mantendo a mesma pelo ano seguinte, tem um novo amadurecimento, pois ano que vem eles estarão de outra forma. Como professora, eu gosto de fazer um fechamento de fim de ano letivo para cada turma, falando sobre as vivências e os aprendizados de cada aluno, bem como um balanço do ele que vivenciou no ano, o que gostaria de levar dos momentos de convivência, o que gostaria de deixar para trás, o que está em excesso e o que tem medo de perder. As perguntas variam a cada faixa etária, mas são válidas de serem feitas em todas elas. Eu recomendo esse balanço final do ano para marcar o fechamento de uma etapa. Cada professor pode ter sua forma de vivenciar isso com os alunos, para além das festas e formaturas, pois é importante marcar cada momento, com o abrir e o fechar os ciclos de maneira significativa.

Nesse sentido, nas despedidas de fim de ano que mencionamos anteriormente, é comum escolherem professores para serem homenageados pelo grupo, mostrando que, além de serem professores de disciplinas específicas, eles também conseguiram criar um laço afetivo com a turma ou pelo menos com a maioria dos alunos de uma turma. Esse momento é muito significativo, pois o professor é reconhecido como alguém que deu algo a além do seu papel profissional ou incluiu no seu papel profissional a função de ser uma referência aos alunos, um ombro amigo, um conselheiro, um orientador, enfim, ser uma pessoa humana no sentido de olhar para outros aspectos que não apenas da disciplina ou tema das aulas. 

Ao mesmo tempo, esse tipo de cerimônia pode ser um importante momento para quem deseja ser lembrado nos próximos anos pensar um pouco mais sobre sua própria trajetória como professor, questionar se está oferecendo esse “além”, pensar como ele deseja ser reconhecido, como está desempenhando seu papel e o que pode fazer diferente no ano seguinte para que se sinta mais presente ou envolvido com os alunos se esse for o desejo dele. Também pode ser o caso de levar em conta as limitações de cada um, de perceber se a pessoa deseja, de fato, ir além e dar seu máximo, ponderando sobre sua maneira de atuar.


1 pensamento sobre “Fim de ano letivo: as emoções de terminar um ciclo escolar”

  1. Esse período gosto sempre de avaliar os pontos positivos e negativos que foram pontuado pelos alunos no decorrer do ano. Esse ano verifiquei que perdi a referência de carinho, acolhimento, e de conselheiro. Algo que quero retomar no próximo ano. Situações pontuada pelos alunos durante conversas e avaliações.
    Vejo que esse período é tempo de reflexão e recomeço.

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