Livros que falam sobre sentimentos e emoções

Já falamos aqui no blog que os livros são excelentes aliados para ajudar crianças e adolescentes (além de adultos, é claro) a explorar mais suas emoções e sentimentos. Mas você já parou para pensar no desafio que é criar uma obra literária cativante com essa temática?

No Laboratório Inteligência de Vida (LIV), por exemplo, essa é uma preocupação constante, pois o currículo socioemocional para escolas conta com livros paradidáticos exclusivos que permeiam as atividades de turmas desde a Educação Infantil até o Ensino Médio. Obras hoje bastante conhecidas dos alunos, como “Tomás e a Caixa Amarela”, “O Caderno de Geraldo” e a “A Chave do Teatro”, dentre tantas outras, foram pensadas pelo programa em parceria com escritores conceituados e buscam falar sobre os sentimentos de uma maneira que aproxime do aluno e de sua linguagem.

Joana London, gerente pedagógica do LIV, conta que o primeiro passo na criação dessas obras foi compreender a faixa etária para qual o material é direcionado. “É sempre necessário fazer um mergulho nas questões que são comuns a cada idade, nos seus interesses, sua linguagem, suas múltiplas personalidades e também nos seus desinteresses e repulsas. Quanto mais velha é a criança, mais chances temos de conversar com ela diretamente, o que torna o projeto ainda mais interessante. Também temos uma grande preocupação em pegar uma amostra de realidades e contextos diferentes”, explica. 

Considerando a variedade cultural e social do Brasil, afirma Joana, existe também o desafio de conseguir conversar com realidades completamente diferentes ao mesmo tempo. “Nesse país tão diverso, precisamos investir em uma pesquisa profunda sobre esses diferentes contextos para que todas as crianças se sintam representadas e possam se identificar com as histórias e os personagens, e assim se sentirem convidadas a refletir e falar sobre si”. Nesse processo, além das conversas com as crianças, também são realizados encontros com professores, coordenação e famílias. “Assim pegamos referências de todos os espaços e podemos criar um material mais rico que contemple uma maior diversidade”, destaca a educadora.

Como nasce uma obra infantil

Segundo Joana, outra grande preocupação do LIV é que os livros paradidáticos não pareçam obras didáticas. “O objetivo das histórias não é definir o que é uma emoção, mas sim trazer uma situação onde o personagem vive alguma emoção. A partir dessa vivência abrimos um campo para que, em sala de aula ou em casa, as crianças possam conversar sobre já terem vivenciado algo parecido e sobre o que elas sentiram naquele momento. Ressaltamos que as crianças podem sentir algo diferente do que o personagem viveu. É nesse campo de diálogo e de reconhecimento de si e do outro que a inteligência emocional se dá”, destaca.

Para a escritora Blandina Franco, autora dos livros usados nas aulas de LIV das séries iniciais do Ensino Fundamental, embora seja importante ajudar a criança a entender o que é um sentimento, suas obras não nomeiam necessariamente esses sentimentos. “Na história sobre ansiedade, por exemplo, a gente não fala que o personagem ‘estava ansioso’. Eu tentei montar uma situação na qual normalmente as crianças ficam ansiosas para mostrar o que é a ansiedade sem dizer ‘ansiedade é isso ou aquilo’”, conta. 

Ainda segundo a autora, essa foi uma premissa definida com o LIV no início da parceria, para que as obras tratassem dos sentimentos do ponto de vista literário, sem explicações burocráticas. “Falar com crianças parece simples, mas na verdade é complicado, porque elas têm uma linguagem muito especial e você tem que falar e enxergar as coisas como elas enxergam. A história tem que tocar de alguma maneira, caso contrário, vai ser só mais um livro”. 

A escritora conta ainda que se policia para que seus textos não ofereçam explicações em excesso. “Às vezes é difícil não terminar uma narrativa com uma ‘moral da história’, mas eu acredito que quando falamos dessa maneira a criança não escuta de verdade. A explicação dada racionalmente não toca. Ela precisa sentir e desenvolver esse sentimento dentro dela”. 

O que levar em conta ao escolher um livro sobre sentimentos

Com o potencial que os livros têm de falar sobre sentimentos sem dar explicações teóricas, eles acabam se tornando parceiros para educadores e famílias que desejam dar mais atenção para a inteligência emocional das crianças e dos adolescentes. 

Contudo, antes de escolher uma publicação com essa proposta, é importante desconstruir a ideia de que a inteligência emocional é apenas a capacidade de nomear e reconhecer as emoções, como se fosse um conteúdo escolar. Segundo a gerente pedagógica do LIV, é preciso, na verdade, abrir espaço constante para falar desse tema no cotidiano da família e da escola. “Esse trabalho desconectado da realidade de cada um não tem efeito e acabaremos nos limitando a só definir e robotizar a nossa subjetividade. O cuidado com as emoções deve fazer parte da cultura da família, nas suas ações e relações”.

Sendo assim, ela explica, qualquer livro ou história pode servir de disparador para abrir o campo de diálogo com eles e ajudá-los a falar mais sobre sua visão de mundo e sobre o que sentem. “As narrativas escolhidas podem ser de temas já conhecidos e de fácil identificação, que façam parte daquela realidade. Também pode ser uma ótima oportunidade de oferecer novas referências, personagens e diversidade para que a empatia seja compreendida desde cedo”, conclui.

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