Questões para pensar antes de marcar encontros com grupos de pais ou professores

Se você é educador, é bem provável que já tenha precisado coordenar encontros com grupos de pais e responsáveis ou mesmo com seus colegas de profissão. Por envolver uma série de aspectos, incluindo as próprias habilidades socioemocionais, a ideia de organizar reuniões e encontros pode gerar desconforto para algumas pessoas.

De acordo com Márcia Frederico, psicóloga e consultora pedagógica do Laboratório Inteligência de Vida (LIV), antes de buscar técnicas ou soluções prontas, quem se vê diante desse desafio precisa refletir o que significa montar um grupo e o que ele poderá oferecer a todos os envolvidos. “O coordenador de um grupo não está num papel fácil. Existem conflitos e ansiedades internas que precisam ser ponderadas o tempo todo”, explicou a especialista durante uma palestra sobre o tema na 1ª Formação de Tutores LIV+.

O que é um grupo?

Para iniciar a reflexão, é preciso primeiro definir o que é um grupo. Segundo Márcia, diferentemente do conceito de agrupamento, que significa o encontro casual, o grupo é a reunião intencional de pessoas com objetivos em comum. “É o objetivo comum a todos que garante a continuidade dos encontros. Por isso, o coordenador do grupo tem que definir claramente que objetivos serão esses e se são de fato comuns a todos os membros, além de entender o que realmente fará alguém querer participar daquele encontro”.

Outro aspecto importante para refletir sobre o tema, é que um grupo vai além da soma de seus indivíduos. “Ele tem normas e regras, identidade, totalidade e uma dinâmica própria, que configura a identidade grupal”, diz Márcia. Nesse sentido, mesmo que as regras e combinados sejam estabelecidos em conjunto pelos membros, é responsabilidade do coordenador fazer sua manutenção e dar prosseguimento para alcançar os objetivos.

Observando características e diferenças

De acordo com Márcia, o educador que se propõe a organizar um encontro, precisa ter em mente que o trabalho em um grupo de professores é bem diferente daquele realizado no grupo de pais e responsáveis. “No caso dos educadores, trata-se de um grupo de pares, ou seja, pessoas que estão conversando a partir do mesmo ponto de vista. Já com as famílias, isso muda, pois cada uma é, por sua vez, um grupo com suas próprias regras. Ao se reunirem na escola, essas famílias estão saindo do seu grupo primário para um grupo secundário”. 

Além dessa diferença básica, cada grupo tem em sua dinâmica interna ambiguidades e forças que coexistem. “Assim como acontece com alunos em uma sala de aula, cada participante de um grupo tem um perfil diferente que precisa ser observado por quem está à frente. Mesmo em grupos mais homogêneos formam-se papéis e hierarquias”, explica Márcia. Por conta disso, durante cada encontro forma-se um campo dinâmico, que pode conter ansiedades, projeções e questionamentos sobre as propostas colocadas. 

Nem sempre, contudo, isso será exposto verbalmente. Segundo a psicóloga, existe uma comunicação não verbal que precisa ser observada por quem está à frente de um grupo, como clima, tom de voz, trocas de olhares e contato entre pessoas, sono ou até mesmo a distração e dispersão da atenção.

A empatia, portanto, se faz imprescindível. “O coordenador, especialmente, precisa se colocar no lugar do outro, imaginar o que está acontecendo com seus interlocutores, e discernir e dar prioridade à voz de todos”, diz Márcia. Esse olhar atento para os membros do grupo é o que também contribui para a integração, fornecendo espaço para que todos possam se sentir pertencentes.

Pensando nas dificuldades

Segundo Márcia, quando uma pessoa se vê diante da condução de um grupo, ela precisa estar preparada para lidar com momentos que podem fugir ao planejado. “Uma situação que vivencio na minha prática, por exemplo, é alguém chegar no grupo depois do início do encontro. Nessas horas, surgem perguntas como: ‘Vou parar a atividade ou vou deixar prosseguir?’; ‘Preciso chamar a atenção da pessoa atrasada?’; ‘Os colegas que já estavam vão se incomodar se eu não falar nada?’; etc. São muitas inquietações que rodam na cabeça”, conta Márcia. 

Outro aspecto comum, também destacado em sua palestra, é a dificuldade de manejar o tempo de execução das atividades previstas. “Quando há uma integração no grupo, em que as pessoas são convidadas a falar, o coordenador pode se questionar sobre a hora de interromper. O manejo grupal depende da condução e da elasticidade das rédeas do grupo, além de saber quando é preciso deixar fluir a conversa ou retomar o objetivo inicial”, pondera.

Fato é que não há um caminho único para conduzir um grupo, pois cada um terá suas prioridades e modos de fazê-lo, e ao coordenador é importante a capacidade de acolher as mudanças e compreender se possíveis alterações no roteiro são válidas ou se podem ser colocadas em outros momentos.  “Tudo o que acontece em um grupo tem prós e contras, depende de como o coordenador maneja isso e de como ele entende que um possível acontecimento negativo possa ser transformado em algo positivo”.

Ideias para os encontros

Como mencionado mais acima, cada grupo tem sua própria dinâmica e encontros podem ser conduzidos de incontáveis maneiras. Entretanto, explica Márcia, há situações que podem ser propostas no início, meio e fim de qualquer reunião para ajudar a torná-la mais fluida e dinâmica. Confira a seguir algumas ideias indicadas pela especialista com base na  metodologia do Sociodrama:

  • Organização prévia

Todo encontro precisa ser planejado. Cabe ao coordenador do grupo pensar sobre como será feito o convite aos membros, como irá recepcioná-los, que materiais usar antes, durante e depois da atividade, dentre outros aspectos. Além disso, essa preparação prévia também envolve pensar o que pode fugir ao controle e como fazer o momento ser rico mesmo com turbulências.

  • Aquecimentos

Márcia explica que há dois tipos de aquecimento: o inespecífico e o específico. O primeiro diz respeito à chegada das pessoas ao encontro, aquele momento em que recebem boas vindas e se acomodam. Já no aquecimento específico, são passadas as ideias iniciais que irão permitir a integração. Esse momento pode se dar de inúmeras maneiras, com dinâmicas em grupo ou duplas, atividades para “quebrar o gelo”, propostas de reflexão, etc. O importante é que o aquecimento forneça espaço para quebrar as amarras iniciais de forma que todos comecem a se sentir pertencentes ao grupo antes de iniciar as atividades.

  • Dramatização

e acordo com Márcia, esse é o momento em que é selecionado pelo grupo um tema, um protagonista, ou um tema protagônico do grupo. Isso pode ser traduzido como o momento em que a “tarefa do encontro”, propriamente dita, é executada.

  • Síntese

Todo encontro precisa de uma conclusão. Do contrário, é possível que deixe a impressão de não ter sido produtivo, tampouco indicado novos rumos. Cabe àquele que está conduzindo a reunião encaminhar o grupo para o fechamento. Nesse momento, ressalta Márcia, é interessante que haja um espaço para o compartilhamento de falas e ideias levantadas ao longo do encontro, além de ponderações e definição de próximos passos. 

Para se aprofundar no tema…

Para quem deseja entender melhor a teoria do manejo grupal e das relações sociais, Márcia Frederico indica um mergulho inicial em seis autores:

  • Jacob Levy Moreno
  • Kurt Lewin
  • Enrique Pichon Rivière
  • Henri Wallon 
  • Lev Vygotsky
  • David Zimmermann

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