Precisamos falar sobre os sentimentos dos educadores

Como anda a saúde física e mental dos educadores brasileiros? Ao que tudo indica, não vai muito bem. Dados de uma pesquisa realizada em 2018 pela Associação Nova Escola com mais de cinco mil pessoas identificaram que 66% das professoras e professores já precisaram se afastar do trabalho por questões de saúde.

Entre os problemas que apareceram com maior frequência no levantamento foram a ansiedade, citada por 68% dos educadores; casos de estresse e dores de cabeça (63%); insônia (39%); dores nos membros (38%) e alergias (38%). Além disso, 28% disseram já ter sofrido de depressão.

Embora sejam índices preocupantes, muitas vezes os aspectos da saúde mental e física de educadores e funcionários escolares são ignorados no cotidiano. De acordo com Joana London, gerente pedagógica do LIV, para endereçar essas questões é preciso falar sobre os sentimentos dos educadores e tentar entender por que estão sofrendo tanto. 

Em palestra durante a 1ª Formação de Tutores LIV+, a psicóloga apontou como o cuidado com o corpo docente e o olhar para a saúde emocional são importantes para alterar esse quadro. “Infelizmente, a gente vive em um país em que a profissão do professor é desvalorizada. É preciso um processo de se revalorizar”, disse durante sua palestra.

Para a especialista em educação, Lourdes Atié, que também esteve presente no evento, esse processo de revalorização inclui um olhar para os sentimentos e as vulnerabilidades dos professores. “Na educação, a vulnerabilidade não é bem vista. Ela é muito negativa para a gente, no entanto, o ato de ensinar e aprender é vulnerável, porque a gente não tem controle. A gente não fala sobre isso. Falar sobre vulnerabilidade é dizer ‘sim, eu sou frágil, eu erro, tenho dor, tenho medo, me excedo, eu sou humano’”, destacou em palestra durante o mesmo evento.

Espaço de acolhimento

A importância de falar sobre os sentimentos e vulnerabilidades dos professores é o tema do livro Cuidar de Quem Ensina, assinado por Lourdes e lançado este ano em parceria com o Laboratório Inteligência de Vida (LIV). O livro faz parte do programa LIV para Professores e trata de questões relacionadas ao desenvolvimento socioemocional dos educadores, muitas vezes ignorado na formação docente, como intimidação, estresse e sono. “É incrível a quantidade de pesquisas mostrando o quanto a falta de sono prejudica a saúde. Os professores, em geral, não dormem e quando o fazem, não dormem bem”, afirmou a autora.

Segundo Joana, além de levantar diferentes temáticas relacionadas à saúde mental e física, o programa visa criar um espaço de acolhimento para os membros do corpo escolar, ampliando os espaços de promoção do desenvolvimento socioemocional para além das aulas. O socioemocional não é só para o aluno. Se a gente não pensar em uma cultura socioemocional, acolhendo essas pessoas que fazem parte da comunidade escolar e construindo esse pilar, a gente vai deixar muito de lado. […] A escola não é mais a mesma escola de antes, a gente não pode ser esse mesmo professor”, observou a gerente pedagógica em sua apresentação.

Elaborado pela equipe pedagógica do programa, o LIV para Professores será aplicado nas escolas em uma série de encontros mediados pelos tutores formados em janeiro, permitindo que cada escola possa ampliar esse espaço de convivência ao longo do ano. “O ambiente escolar é o ambiente do coletivo, mas posso coabitar e não ter convivência. Há muitas escolas que são assim, em que o professor entra e saí sem conviver naquele espaço. O material visa exatamente ampliar essa convivência entre professores, entre professores e alunos, e com as famílias. Sem bem-estar emocional não é possível fazer um bom trabalho”, destacou Lourdes. 

***

Leu este texto e quer saber mais sobre o tema? Cadastre-se aqui para receber conteúdos exclusivos no seu e-mail. Você também pode seguir o LIV no Instagram e no Facebook para conferir mais indicações e referências, além de saber das novidades do programa.

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

oito − 8 =